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História de Encantar

História de Encantar

Era uma vez um homem que vivia sozinho, todos diziam que ele tinha muito mau feitio.
Lá na aldeia onde ele morava ninguém gostava dele e ninguém sabia como era a casa dele, nunca ninguém lá entrara, não se lhe conheciam amigos ou parentes.
Um dia, foi morar para aquela aldeia um casal que tina um filho ainda criança, a sua casa ficava mesmo em frente da casa do tal homem.
Passados alguns dias de se terem mudado, o menino, perguntou á mãe:
- Mãe, quem mora naquela casa?
- Não sei filho, mas ali na mercearia disseram-me que é um homem muito mau.
O Pai que ouvia a conversa recomendou ao filho:
- É verdade filho, também já ouvi, no café, dizerem que se trata de uma pessoa com muito mau feitio e que a sua casa é muito medonha, dizem que parece assombrada. Não te aproximes muito.
Os pais não conheciam bem o filho que tinham, quanto mais o tentavam assustar, mais despertavam a sua curiosidade. Os dias foram passando e o pequeno foi elaborando um plano.
- Bom dia.
- Olá meu menino, bom dia, quem és tu? Queres alguma coisa?
Afinal o homem não lhe parecia assim tão mau como diziam, até parecia ser bem-educado.
- Eu sou o Filipe, moro na casa em frente, a minha mãe mandou-me pedir-lhe um pouco de sal. Pode emprestar-nos? A mercearia já está fechada.
- Claro que posso, entra, entra.
O garoto ficou sem saber como reagir, então e se o homem fosse mesmo mau e lhe quisesse fazer mal, o homem, vendo a hesitação do miúdo, disse-lhe:
- Já sei, tens medo de mm, já vos devem ter contado mil histórias a meu respeito. Tudo bem, espera aí, vou buscar o sal.
Deu dois passos quando ouviu o garoto.
- Não é preciso, deixe estar. Posso entrar?
- Claro que podes entrar, mas afinal queres o sal ou não?
- Não, eu inventei a história do sal, tinha curiosidade de o conhecer.
- Pois é, tinhas curiosidade e agora tens medo. Não é?
- É, sim senhor.
-Pois bem, podes fazer duas coisas, ou entras e mostro-te a minha casa ou vais-te embora.
O jovem ousou entrar e ia caindo de espanto, nunca vira uma casa tão bonita, afinal a história da casa medonha era mentira, se calhar como tudo o resto.
- Estás admirado não estás? Eu sei que toda a gente da aldeia pensa que tenho uma casa terrivelmente feia, Vem daí comigo.
O espanto do jovem crescia á medida que ia descobrindo novas salas e quartos, mas nada comparado quando viu o lindo jardim interior, aí sim ficou de boca aberta.
- Mas porque é que o senhor, com uma casa tão bonita, vive assim sozinho?
- Senta-te aí, vou contar-te uma pequena história.
O homem começou a contar, ao jovem, os motivos que o tinham levado a tomar a decisão de viver isolado do mundo esqueceram-se das horas, e só quando ouviram umas pancadas na porta é que voltaram a terra.
- Quem é?
- Abra a porta imediatamente, sabemos que o nosso filho está aí dentro.
- Os meus pais? Que horas são?
- é muito tarde, perdemos a noção do tempo.
- Não se preocupe, eu explico-lhes tudo.
- Não irão acreditar em ti, toda a aldeia me teme.
- Deixe isso comigo.
 O jovem avançou decidido para a porta, abriu-a e deu de caras com quase toda a aldeia, ouviu o gentio proferir insultos ao dono da casa e não se conteve:
- Muito bem, vós todos que se armaram em heróis para me vir salvar das garras do malfeitor, escutai com atenção o que vos quero contar, e não duvidem do que vos vou dizer, posso ser ma criança, mas talvez seja essa a minha grande virtude, não ter, nos meus treze anos, a maldade que vós tendes acumulado ao longo da vossa vida.
Este homem, a quem vós insultais, é um homem muito mais digno que muitos de vós, não vos culpo por não terem metade da cultura dele mas sim por fazerem juízos sem conhecerem a realidade. Vão todos para casa e depois do jantar juntemo-nos no adro da igreja, em redor do madeiro de Natal, e eu vos contarei a história de coragem deste a quem tendes desprezado. Ide todos.
O jovem abraçou o seu anfitrião e chamou os pais, estes pediram licença e entraram foram convidados a sentar-se, também eles estavam espantados com a beleza desta casa.
- Enquanto o vosso filho vos conta a minha história, eu vou preparar qualquer coisa para comer.
- Deixe estar sr…
- Guilherme, desculpem eu nem me apresentei, Agora sentem-se e ouçam o vosso filho.
O homem retirou-se e o pequeno Filipe contou-lhes que Guilherme escolhera viver assim depois da sua esposa e o seu filho terem sido assassinados na grande cidade onde viviam, era um famoso escritor de romances e ali poderia viver em paz e dedicar-se a escrever livros que nunca mais editara. Os pais do garoto sentiam-se envergonhados, Comeram, conversaram e antes de sair perguntaram a Guilherme:
- Mas se nunca tinha querido que a aldeia soubesse da sua história, porque resolveu contá-la agora?
- Eu não resolvi contá-la, foi a pureza de uma criança que a descobriu. Ainda por cima uma criança com a mesma idade que o meu Tiago teria se fosse vivo.
- Sim, mas podia escondê-la do resto a aldeia.
- Eu não tinha o direito de recusar o pedido do vosso filho para que partilhasse o Natal com todos vós. Não, depois de ele ter acreditado em mim.
   
Lá se dirigiram para o adro da igreja, onde Filipe voltou a contar a história de Guilherme, a população sentiu-se envergonhada e pediu desculpas ao homem.
- Eu não vos censuro, e para vos provar isso vou providenciar no sentido de publicar os livros que escrevi desde que cá cheguei, sob o nome de Tiago Filipe. Feliz Natal para todos.

Moral: “Nunca julgues alguém só pelo que falam desse alguém”


FrancisFerreira
FrancisFerreira
Enviado por FrancisFerreira em 29/11/2007
Reeditado em 20/01/2008
Código do texto: T758018

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Sobre o autor
FrancisFerreira
Portugal, 59 anos
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FrancisFerreira