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                        ATÉ QUE DA COLA NOS SEPAREM



Eram dois adolescentes perdidamente apaixonados. Pedro Paulo, Pepê; e Valéria, Val; ambos de quinze anos. Porém, os pais de Valéria detestavam Pedro Paulo, um jovem de má fama , era o bad boy do bairro. Mas,comentavam que ele tinha melhorado muito depois que começou a namorar  a Valéria. Pepê e Val pouco se encontravam, e quando acontecia, era muito rapidamente; seus pais controlavam todo o seu tempo. Um belo dia, para espanto de todos, eles entraram de mãos dadas na casa da Val. Da. Valquiria, mãe dela, quase caiu dura.

_ Mas, o que é isso? Valéria, eu já não falei que não quero que você ande com esse menino?

_ Mãe, nós queremos falar com você.

_ Não tenho nada que falar com vocês. E pode largar a mão dele.

_ Mãe, é sobre isso que quero falar com você.


_ Mas, é justamente sobre isso que não quero falar com vocês.

_ Não, mãe! Nós não podemos separar as mãos. Nós as colamos com Hyper Bus.

_ O que? Ficaram malucos. Isso é coisa que se faça. Deixe-me ver aqui.

Da. Valquiria pegou as mãos deles e tentou separá-las. Valéria gemeu de dor e pediu para ela parar. Desesperada, Da. Valquiria ligou para a mãe de Pedro Paulo, contou a tragédia com todos os detalhes e pediu que ela viesse imediatamente, pois não sabia o que fazer. Da. Suzana, mãe de Pedro Paulo, divorciada, funcionária pública, depois de xingar, chorar, rezar, e ameaçar seu filho com todos os castigos possíveis, tentou, juntamente com Da.Valquiria, separar as mãos dos dois. Valéria gemia o tempo todo. Pedro Paulo, também, mas era devido aos beliscões que sua mãe lhe dava a todo instante. Chamaram o vizinho para ajudar na empreitada. Ele olhou para as mãos dos dois, balançou a cabeça lateralmente e sacramentou:

_ Hyper Bus...só cirurgia... já ouvi cada história.

Sr. Nelson, pai de Valéria, chegou do trabalho e o alvoroço aumentou. Depois de brigar com todo mundo, foi tentar separar as coladas e vermelhas mãos dos aborrescentes, como ele os tratava. Desta vez, Valeria chorou de dar dó. Pedro Paulo agora gemeu, mas não foi por causa dos beliscões: o Senhor Nelson era rude e muito forte. Depois de muito tentar, em vão, ele decidiu leva-los a um hospital. Pepê e Val se negaram ir a qualquer lugar, e impuseram que só permitiriam a separação, se lhes permitissem o namoro. A pressão arterial do Sr. Nelson foi a 22 por 17. Seus olhos, seu rosto, vermelhos em brasa, lançavam faíscas pra cima dos dois. Sua vontade, naquele momento, era bater neles. Da. Valquiria procurava acalma-lo, com palavras, abraços, beijos, água com açúcar. Ele a empurrava na ânsia de alcançar os dois atrevidos; caíram sentados no sofá; quebraram o grande vaso com flores artificiais; quebraram o copo com água doce que Da. Suzana trouxera a pedido de Da. Valquiria; derrubaram cadeiras, bibelôs da estante, quadros da parede; arrastaram a grande mesa pra todos os cantos da sala.Pepê e Val se esquivavam daqui; pulavam pra lá; se enrroscavam, devidos as mãos coladas, nas outras pessoas; pareciam galinhas na fuga; às vezes, ele ia para um lado, ela para o outro,e a força dele a puxava novamente para si.
Lá fora, ouvia-se: os gritinhos da Valéria, os impropérios do Sr. Nelson; os apelos da Da. Valquiria; as rezas da Da. Suzana; o barulho de coisas quebrando, móveis se arrastando, pessoas caindo, gritos de dor, de espanto, de medo, de alerta; os ai!, ui!, ufa!, hum!,argh!, oh!, ih!, anh! ; a multidão delirava. Finalmente as coisas aplacaram-se, a multidão se dispersou, Sr. Nelson se acalmou, raciocinou e sentenciou:

_ Não vou permitir o namoro nunca. Vou esperar o momento que vocês vão implorar para serem descolados, e aí, vão ter que jurar que nunca mais vão se ver.

Deixou a sala e um clima de suspense tomou seu lugar. Da. Valquiria pediu a todos que a ajudassem a colocar as coisa no lugar, que ainda tinha que preparar o jantar. As coisas nos devidos lugares, o jantar em processo, sentaram-se no sofá pra ver TV. Valeria sentada ao lado de sua mãe, sussurrou ao seu ouvido:

_ Quero ir ao banheiro.

_ Banheiro!..., e ele? Perguntou espantada, também sussurrando.

_ Põe uma venda em seus olhos,...cola com Hyper Bus!

_ Engraçadinha. Você só vai ao banheiro quando tiver a mão livre. Da próxima vez, conte até dez antes de fazer besteira.

_ Mãe, estou apertada, vou fazer na calcinha.

_ Cocô ou xixi?

_ Xixi.

_ Ufa! Menos mal.

Neste momento, todos estavam de olhos fixos nas duas cochichando.Da. Valquiria chamou Da. Suzana de lado e explicou a situação. As duas resolveram, então, leva- los para o banheiro. Da. Suzana taparia os olhos do filho e Da. Valquiria ajudaria a filha na complicada tarefa. E lá se foi o cortejo em direção ao banheiro. Pedro Paulo, bem mais alto que sua mãe, tinha que andar abaixado pra que ela alcançasse seus olhos, e no banheiro teve que ajoelhar-se pra Valeria sentar no vaso.
Da. Valquiria lembrou com saudades de quanto tempo fazia que ela não ajudava sua filha desta maneira. Valeria, brincando, lhe perguntou se ela não queria também seca-la.
As mãos de Da. Suzana permitiam, às vezes, a visão de Pedro Paulo, que malandramente forçava a situação sem que ela percebesse. Enfim, o cortejo retorna para a sala, derrubando algumas coisas na passagem.

Hora de servir o jantar, Pepê e Val foram para a cozinha, onde poderiam comer mais facilmente, os demais se instalaram no sofá para acompanhar a novela. Pepê era destro e não conseguia comer com a mão esquerda, Val, então, se pôs a lhe dar comida na boca, brincando de aviãozinho. Foi flagrada e advertida por sua mãe, que entrara na cozinha para pegar água para o seu pai. Sozinhos, novamente, Pepê lhe propôs que trocassem as mãos coladas. Val olhou pra ele assombrada :

_ Cheirou cola?..., vão perceber e descobrir que nós mentimos.

_ Vão nada! Falou Pepê com convicção.

_ Será? Até que seria bom. A minha mão está doendo pra caramba, você apertou com tanta força, que acho que destroncou um dedo.

_ Tinha que apertar, senão seu pai teria descolado nossa mão, desculpou-se Pepê.

Os dois trocaram de lugar e se deram a outra mão.

_ Ainda bem que usou uma cola qualquer e não Hyper Bus, suspirou Val

_ Devia ter usado Hyper Bus mesmo, aí a gente ficaria colado para sempre.

_ Bobo! Colaram os rostos e beijaram-se.

Da. Valquiria voltou para a cozinha e olhou para eles desconfiada.

_ Vocês trocaram de lugar? Pepê e Val olharam-se acuados.

_ Vocês não estavam sentados do outro lado da mesa?

_ É ..., nós mudamos.Estava ruim do outro lado. Respondeu Val rapidamente, aproveitando-se da incerteza da mãe. Pepê e Val olharam-se e respiraram aliviados.

Depois do jantar, sentaram-se no sofá pra assistir TV. Pepê e Val, muito cansados, adormeceram, e, naturalmente, separaram as mãos. Sr. Nelson, que também cochilava no sofá, despertou e viu os dois de mãos descoladas. Chamou ambas as mães, acordou-os abruptamente e o alvoroço recomeçou. Porém, felizes com o desfecho e pasmos com a audácia dos jovens enamorados, riram muito e prometeram rever o namoro. Sr. Nelson, de carro, levou Pedro Paulo e sua mãe para casa, e durante o percurso já se conversavam como sogro e genro; mais o sogro que já estipulava regras para o jovem genro.

Pepê e Val, hoje, são pais de duas lindas crianças: João Paulo, homenagem ao papa, e a pequena e doce Rosa Maria.Continuam ainda coladinhos um ao outro; o que Hyper Bus uniu ninguém separa.



CARLOS AFFONSO
Enviado por CARLOS AFFONSO em 19/10/2005
Reeditado em 01/07/2010
Código do texto: T61219
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
CARLOS AFFONSO
São Paulo - São Paulo - Brasil
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