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"Nomiditu"

Ian e Gladys sempre receberam parentes do interior. Ora, uma irmã que vinha a tratamento médico; ora, um sobrinho que vinha alistar-se no Exército; ora, um amigo que vinha resolver algum problema.

Charles tinha cinco anos. Pele clara e cabelo louro. Muito traquinas, estava sempre preparando uma das suas.Sua marca pessoal era a espontaneidade. Aliás, diga-se de passagem, parece que toda criança traquinas é espontânea por demais. Sobrinho de Gladys, viera para exames médicos. Era amarelo, quase verde. Magricela e barrigudo. Suspeitava-se de anemia e vermes. Não bastasse isso, tinha cabelo grande. Em razão da saúde debilitada quando nascera, a mãe fizera uma promessa para cortar o cabelo do garoto somente quando ele completasse sete anos. Assim, garantiria a saúde do rebento. E assim foi.

Charles não parava quieto. Quando não estava correndo ao redor da casa, estava de castigo em frente à televisão. Gladys pensava que era uma maneira de controlá-lo. Contudo, ele ficava lá dando cambalhotas no sofá ou de cabeça para baixo, apoiando-se no encosto do sofá.

No dia em que  chegou, naturalmente, Charles estava arredio. Afinal, estava longe de seu território. Sentia-se como um pássaro fora do ninho. Viera com a tia Linda. Ian estava assistindo à televisão. Enquanto Linda e Gladys conversavam na cozinha, preparando a mesa para o lanche, Charles aproximou-se e sentou-se na poltrona. Ficou mudo por algum tempo com ar desconfiado. Olhou para Ian como quem queria dizer algo, mas não tinha coragem.

Ian falou:

- Como foi a viagem, Charles? Viu muito gado nas colinas à beira da estrada?

Charles não respondeu. Apenas balançou a cabeça afirmativamente.

Ian insistiu:

- E a viagem? Foi boa? Você gostou?

Charles balbuciou:

- Gostei.

Ian sorriu e voltou a atenção para a televisão. Charles ficou ali, querendo falar algo, mas parecia não saber o quê. A inquietação era tamanha que não se conteve. Disparou:

- "Nomiditu".

Ian não entendeu. Respondeu:

- O quê?

- "Nomiditu".

- Não estou entendendo.

- "Nomiditu".

Ian ficou atônito. Não conseguia entender o que o fedelho estava dizendo. Não sabia se era uma pergunta ou uma afirmação, pois a entonação não ajudava. Não sabia se era uma expressão aborígine ou um palavrão. Então, decidira adotar uma estratégia. Já que não conseguia se comunicar, disparou também:

- "Nomiditu".

Charles respondeu:

- Charles.

Ian não se conteve e deu uma gargalhada. Então, era isso. Ele queria saber seu nome. Óbvio. Informação básica para se estabelecer um contato. Após explicar a Charles qual era a expressão correta para se perguntar o nome de alguém,  Ian disse:

- Meu nome é Ian.
Luiz Coronheiro
Enviado por Luiz Coronheiro em 19/01/2006
Reeditado em 29/07/2006
Código do texto: T100766
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Sobre o autor
Luiz Coronheiro
Guara I - Distrito Federal - Brasil, 52 anos
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Luiz Coronheiro