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Desalinho

Desalinho
 
Os dias passam lentos, se arrastam no verão de janeiro.
A alma se mistura na placidez do sol forte; ambos parecem derreter o corpo cansado, sem destino, em desalinho com a beleza que está lá fora.
Não consegue distinguir a beleza dos dias, se compraz com a tristeza da falta do vento, do ar sufocado  arrastado para as noites quentes.
 
O dia é longo, ou a noite que não passa...
 O ventilador no teto gira num compasso de espera do ar para que possa trabalhar.
O copo de água ao lado do livro que nunca consegue abrir remetem aos longos dias felizes em que alma e corpo sorriam feito primavera.
A televisão ligada  parece querer disfarçar a mudez que o momento confere àquele quarto sem graça.
Ao lado da cama o cão parece entender o contexto e nem se atreve a latir quando o telefone toca.
Sem pressa, ascende a luz, olha no relógio, são onze horas...do dia ou da noite?...pensa em desalinho...está ali a tanto tempo que nem sabe definir o momento...tão lentamente age, que o telefone emudece...melhor assim, pensa com dificuldade...volta a deitar como um dançarino no ar denso, remexe até achar o encaixe perfeito.
Passa a mão no controle, talvez desligar a televisão seja mais confortável...desiste...precisa de um barulho para disfarçar pensamentos insanos.
Olha para o teto, o ventilador parece  pedir socorro. Apaga a luz, quem sabe refresca um pouco.
Seu corpo suado se mistura ao cheiro acre dos lençóis amassados, amarelados pelo tempo em que estão expostos.
Fecha os olhos, tenta adormecer sem vontade.
Abre lentamente os olhos pesados,olha para o computador na escrivaninha...a quanto tempo estará desligado?...não sabe...
Uma lágrima sem sentido cai e molha seu braço, que estava quase lutando para reagir ao marasmo, deixar a desilusão de lado.
Talvez seria melhor, levantar, acender a luz e tentar escrever algo que pudesse aliviar seu coração, pensa num momento de lucidez.
Começa ensaiar o primeiro movimento, procura com dificuldade o interruptor que até a pouco estava ali tão fácil, agora parece que escorregou para baixo, onde está? ...tateia sem conseguir achar o rumo, sem paciência...nestes últimos dias teve alguma?...pensa...
Volta à posição fetal, fecha os olhos e tenta dormir...amanhã quem sabe...
 
(Cássia Vicente/17-01-06)
 
Cassia Vicente
Enviado por Cassia Vicente em 20/01/2006
Código do texto: T101321

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Sobre a autora
Cassia Vicente
Jataí - Goiás - Brasil, 58 anos
943 textos (56865 leituras)
8 e-livros (762 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 06/12/16 16:12)
Cassia Vicente