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INGRATIDÃO


Ela estava sentada no jardim sozinha. Não conseguia mais enxergar direito mas podia sentir o cheiro da chuva, da terra molhada e ouvia o cantar de um passarinho. Seus pensamentos foram longe, longe... Pelo menos para cinquenta anos atrás. Lembrou-se de uma tarde em que as crianças estavam chupando manga verde no quintal. Ela já havia percebido que o céu estava escurecendo e foi chamá-los. Tinha três filhos lindos e como os amava!
O mais velho chamava-se Paulo, garoto robusto e protetor, sempre preocupado com os irmãos. A menina era a filha do meio, teimosa que só, não sabia a quem tinha puxado ou sabia? Renata era o nome dela e já não se lembrava por que tinha escolhido aquele nome.
O mais novo era o Raul. Tão pequenininho! Sofrera desde que nascera, pois tinha chegado justamente na época em que tinha ficado viúva.
Como estava sendo difícil criá-los, sem trabalho, dependendo da ajuda dos outros. Havia dias que não sabia o que fazer e hoje era um deles. Nada tinham dentro de casa a não ser um pacote de farinha. Se tivesse ao menos um pouco de leite...
Chegara ao ponto de andar pelas ruas e rezar para encontrar algumas moedas, algum dinheiro perdido. Tinha já uns dois meses que não comiam carne. Sonhava em fazer um feijão, com aquele caldo grossinho e colocar farinha para comer com a mão.
Os relâmpagos não paravam e gritou pelos filhos. Não respondiam. Forçou os olhos e não os via mais. Aonde tinham se metido com um mau tempo daqueles?
Começou a correr para trazê-los antes da chuva engrossar. Quando chegou próximo ao pé mais alto de mangueira ficou petrificada: uma cobra estava enroscada num galho, pronta para dar o bote em Renata. Paulo não sabia o que fazer e estava imóvel enquanto que Raul chorava silenciosamente. Pensou, meu Deus, a cobra irá atacar Renata. De um salto, correu para baixo da árvore e tentou atrair a atenção da cobra para que a filha pudesse pular. Quando Renata pulou, deu ordem para que todos corressem. Chegaram em casa sãos e salvos.
Naquela noite, nada tinham para comer, deu Graças a Deus por eles terem as mangas do quintal. Mais uma vez dormiriam com fome. Era tão doído no calar da noite ouvir a barriguinha de seus filhos roncando.
Pensou consigo mesma que no outro dia iria até a Casa Grande na fazenda e aceitaria o emprego de lavadeira, afinal, Renatinha já estava uma mocinha.
De manhã, arrumou-se com o que de melhor tinha e foi caminhando até a fazenda. Os pés iam fazendo o pó levantar. Ao chegar, deu de cara com um carro saindo, era o dono das terras em que morava. Pediu para falar um minuto e perguntou se havia alguma vaga para ela. Deu sorte, tinha.
Começou no dia seguinte mas podia levar só a menina, os meninos tinha de ficar em casa depois que voltavam da escola. Naquela casa ficou por dez anos e agüentou todas as humilhações possíveis para poder garantir o pão de seus filhos. Sofreu abuso, apanhou, comeu restos, foi até acusada de ladra, mas como não tinha para onde ir, foi ficando e ... agüentando.
Aos 39 anos, parecia que tinha 50. Sentia dores pelo corpo todo, seus dentes se estragaram e suas mãos calejadas já não tinham a força de antes. Algo bom acontecera, com o dinheiro tão suado e sofrido ganho naquela casa, conseguiu que os três estudassem. Paulo estava em São Paulo, era advogado e Raul no Rio de Janeiro, tinha entrado para a Marinha. Ninguém lhe escrevia e ela achava que era porque não sabia ler. Quando perguntavam de seus filhos, dizia com orgulho que eram “dotôres”. Somente Renatinha tinha ficado, mas tadinha, não dera sorte na vida não. Arrumou barriga com 16 anos e o moço era casado. A sua netinha era a coisa mais linda, a chamava de bobó. Renatinha já estava grávida de novo só que agora era de outro pai. E, para cuidar de mais um netinho é que ela foi ficando naquela casa.
Sua patroa, vivia ameaçando de mandá-la embora, hoje ela já não servia mais.
Não via a hora que um de seus filhos viessem buscá-la. Iria com o maior prazer, já estava tão cansada. Queria que eles se casassem com moças bonitas e boas e que pudesse morar com um deles.

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Renatinha morreu no segundo parto. A criança sobreviveu, mais uma menina, teimosa pela vida. Cuidou das netinhas enquanto seus filhos não lhe davam netos.
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Um dia chegou uma carta. Sua patroa que tinha ficado velha também e hoje já não implicava tanto com ela veio entregar-lhe, o papel quase rasgado. Disse a ela que podia ler. Era de Paulo. Fizera fortuna em São Paulo, tinha escritório próprio, estava casado e tinha um casal de filhos. Dizia que queria levá-la para morar com eles mas sua esposa não queria. Faz mal não filho, pensava, a mãe fica feliz “doce” tá encaminhado. E os anos foram passando...

Naquela casa ela já não era mais empregada. O véio tinha morrido e a patroa se apegara a ela.

Certa manhã, a patroa amanheceu morta. Sem saber o que fazer buscou socorro na fazenda mais próxima. Foi feito um enterro simples, não tinha ninguém além dela para chorar por aquela alma.
Dois dias depois apareceu um advogado. Disse-lhe que a casa, a fazenda, agora era dela. Inocentemente disse ao homem que não podia ficar com aquilo tudo, nem sabia ler. A única pergunta que ele fez foi se ela sabia assinar o nome. Ela disse que sim.
Voltou na manhã seguinte com outro advogado e um monte de papéis para ela assinar. Na sua ignorância assinou todos. Mal sabia que estava doando tudo que por direito era seu.

... e agora, sentada no jardim da Casa de repouso Porta do Sol, sentia o cheiro da chuva, com os dedos calejados alisou a coberta em cima de suas pernas inertes e esforçou-se para ver aquele passarinho que lhe trouxera tantas lembranças...

CRISTIANE DONIZETE
Enviado por CRISTIANE DONIZETE em 26/01/2006
Reeditado em 11/05/2006
Código do texto: T104439
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Sobre a autora
CRISTIANE DONIZETE
São Paulo - São Paulo - Brasil
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CRISTIANE DONIZETE