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A CONTRA-CONSULTA

A CONTRA-CONSULTA
CHE QUEVARA
e a
Transformação da sociedade
FLÁVIO MARTINS PINTO

Fundação BIBLIOTECA NACIONAL/MEC
Escritório de Direitos Autorais
Nº de registro: 332.524-Livro:590-Folha:184
Protocolo de registro-2004RS_332

A todos que se indignam contra aqueles que manipulam a mente humana para fins escusos e os que tentam justificá-la alardeando que é para a salvação do homem.
O autor
Esta é uma obra de ficção e os aspectos apresentados são mera coincidência.

A CONTRA-CONSULTA

Quevara estava absorto fazendo anotações sobre os últimos pacientes quando entram no seu consultório quatro jovens.
Entraram e sentaram no chão bem defronte a mesa da secretária.
- Daqui não saio sem que este cubano safado explique o que fez para a mãe do Lenininho e para ele.
- Eu também não, disse a outra.
-    E se ele não quiser falar?
-    Olha, Stanley, eu..
-    Já te disse que não gosto que me chamem por esse nome fascista.
-    Mas é o teu nome ou não é?
-    É, foi meu pai, aquele gigolo explorador de comerciários que me deu. E daí?
-    E daí dizemos nós, pois tu é que ficas brabo. Vocês tem uma baita de uma loja. Tri, sabe como é, não é? Ora essa!Baaah!
- Eu gostaria de trabalhar lá. É uma loja super fashion, tá,  trilegal mesmo.
- Que negócio é esse de trabalhar? Trabalhar é prá capitalista. E outra, meu nome é PC.
- E nós,  não temos de comer, cara?
- Sim, mas temos de orientar as massas. Comer, trabalhar, isso é só um detalhe. E dinheiro, não é problema. E temos de ficar longe dessa sociedade consumista agonizante.

A gringa logo entrou em ação perguntando aos jovens o que queriam.
- Queremos falar com esse gusano que atende aqui.
- Quem?
- Esse tal de Quevara.
- Vocês tem hora marcada?
- Não.
- Mas olhem, ele não atende em grupos. A não ser que..
- A não ser o quê?
- Bom, isso é com o Quevara. Quem vocês pensam que são?
- Viemos tomar satisfações dele. Mas vai ou não nos atender?
- Vou ver, disse a gringa dirigindo um olhar meio entonado a todos.

         No gabinete do seu patrão a gringa foi logo dizendo:
- Quevara, tem uma turma aí que quer falar contigo. Não sei se querem consultar.
- Mas que querem de mi?
- Não sei, meu Quevara.
- Quantos são?
- Quatro. Duas gurias e dois guris.
- Porquê dizes dois guris e duas gurias, se basta dizer que são ..
- É, hoje não se sabe.A côsa é complicada. Acho que são hippies.
- O quê? Manda entrar, entonces. Mas não esquece de deixar a lanterna encima da mesa.
Entraram na sala muito desconfiados, mas o mais aguerrido queria agredir Quevara.
- Me larguem, gritava para os outros. Não posso admitir que esse psiquiatra de uma figa ofenda a mãe de um dos nossos.
- Mas que passa?
- Eu é que digo o que passa e vá me explicando o que aconteceu com a companheira Tildes.
- Ah, si, si, si. Que explicaciones querem ustedes?
- Seu Quevara, foi falando uma das moças, ela mudou radicalmente. Até já foi comprar roupas novas na loja do pai do Stanley.
- Já disse que não gosto que me chamem por esse nome capitalista.
- Está bem, está bem.
- O que passou é que apliquei na doña Tildes el Guascázo. E pelo que parece teve resultados imediatos.
- Seu Quevara, a moça mais quieta começou a falar, o que me preocupa é que ela era a nossa defensora da transversalidade, sabe?
- Transversalidade?
- Sim, esse morfismo matizado da sociedade atual que é indiscutível e que vai de encontro aos desejos da mulher moderna.
- Desejos? Si, si, si, continue, chica.
- A mulher deseja a elevação da sua consciência corporal para combater a homofobia decadente em crise. É claro que a autenticidade da exteriorização da matização da transversalidade congênita faz parte da quebra do pensamento das mentes arborescentes. Mas isso era o que a Tildes queria, tás me entendendo, Seu Quevara?
- Si, si, si.
- Então, Seu Quevara, desmontar o pensamento arborescente pelo pensamento volatilmente constituído é uma meta do meu grupo, quero dizer, da nossa turma, a TRIPA. Somos contra esse homogenismo dominante e opressor.
- Si, si, si, continue.
- Pois é, Seu Quevara, a  Tildes modificou seu pensamento unilateralmente e já quer alterar a pauta das nossas reuniões. Íamos tratar na semana que vem da Crise da diversidade dentro da transversalidade. E ela já propôs uma troca de tema para Kama Sutra ou então assistirmos o Anonymus Gourmet na TV. O que o senhor fez com a combatente Tildes, Seu Quevara?
- Mirem, Doña Tildes estava sofrendo de um mal terrível e a curei. Não decidiu unilateralmente e sim porque quis e não deve dar explicações desse ato a vocês. Não se pode querer fazer lavagem na cabeça das pessoas sempre. Assim como um dia la broma é apanhada , chega o dia de prestarmos conta do que fazemos.
- Quevara, o que Tildes fazia era , e é, elevar a consciência moral das mulheres colaborando, num multifacetamento democrático e participativo,  para que as minorias dominadas tivessem sua vez .
- Si, si, si. Mas o que fazia era uma brutal lavagem cerebral nesses integrantes dessa tropa, digo, da TRIPA. E outra, não tenho de dar satisfaciones profissionais de minhas tarefas a vocês, que mal sabem o que Consciência Moral.
- Como que não sabemos? É tudo o que o socialista combatente deve saber para combater a problemática do pensamento caosmótico neoliberalizante, falou Stanley.
- Por mil merdácias, retrucou Quevara brabo como gato corrido a vassouraço, bem como dizia seu amigo Malasuerte. O que vocês conocem de consciência?  E quierem salvar el mundo com esses destrambelhados? Esses jovens que só sabem falar palavras de ordem repetidas a exaustão? que só sabem falar difícil mas siquer sabem o que estão falando? Estúpidos úteis a uma causa que matou millones e millones de personas.
- Quevara, viemos aqui tomar satisfações sobre o fizeste com a nossa orientadora, que não pode tomar decisões desse tipo unilateralmente e não tomar lições de ..
- Mirem, yo faço o que for melhor para ustedes e para quem me procura. Si quierem quierem, si no quierem no quierem. A doña Tildes serviu . E por su vida e pensamientos ela decide e não vocês, por supuesto.
- Ah, Seu Quevara, se soubesses como é bom ser do partido. Ele é a panacéia para tudo. Ele nos basta. Ele é o canal para nossos sentimentos, aspirações, desejos, não temos aquele abismo que o homem comum tem entre ele o resto do mundo. Somos o partido, respiramos o partido. Não temos medo de sermos felizes. Sem ele sou como um saco sem fundo. Eu mesmo já coloquei no meu nome o símbolo dele. Ah, Seu Quevara, ficamos muito tristes com as mudanças da Tildes. Tão combativa, agora só pensa em cuidar da casa, das crianças. Ainda bem que o marido dela está longe em Brasília, disse de modo bem delicado o rapaz que até agora não havia se manifestado.
- Bando de alienados. Só não chamo um senhor que conheci outro dia para lhes dar uma surra com rabo de tatu porque não sei onde encontrá-lo hoje. Entregar a mente para outros é a maior das escravidões. Vocês fizeram isso, e querem impedir que outra pessoa que conseguiu ver fora da caverna se liberte. O que vocês precisam é de uma boa trouxa de roupa suja para lavar e passar invés de enfiarem lições velhas e amargas na cabeça dos mais fracos. Aliás, vocês também fazem parte desse grupo de cabeças fracas pois se entregaram aos manipuladores sem medo de serem felizes. Vocês acham que ser feliz é manipular a mente dos outros introjetando conceitos surrados e que não deram certo em lugar nenhum a não ser em totalitarismos sanguinários ou então aceitar esses conceitos sem poder discuti-los ou questiona-los?
- Mas como não deu certo?  e Cuba, Quevara?
- Si, si, si. Sou de lá e conheço bem. Vocês só conhecem Cuba Libre e mesmo assim não sabem do que ela é feita. Só conhecem o porre causado.
- Ah, seu Quevara, não nos ofenda, por favor. Ainda mais que meu ídolo é Freud, tá! falou a garota mais hippie.
- Si, chica, essa sua camuflagem de querer atacar o homogenismo não é mais nada do que um profunda repressão sexual. Deveria ter dito isso em particular mas....... Se quiseres uma consulta fala com a gringa e marca hora. Vocês todos estão sendo usados, tendo como pano de fundo a repressão sexual, tudo como utensílio para a guerra ideológica de uma corrente que se rotula como salvadora. Essa militância organizada para combater o homem e destruir a fé e qualquer manifestação humana fora da caverna que vocês vivem é de uma violência descomunal. Sempre arranjam um pretexto para acomodar suas idéias tresloucadas. Em que  barco vocês entraram? Por essa eu não esperava, por mil merdácias. O uso da repressão sexual como instrumento ideológico, disse Quevara olhando para as pernas da garota .
- Tira os olhos da Luluca, Quevara. Ela é casta e não admito olhares desse tipo a integrantes do meu grupo, gritou Stanley agarrando as garotas e as arrastando para fora do consultório.
- Calma, onde vão?
- Para fora desse consultório, psiquiatra opressor.
- Não querem o diagnóstico?
- Não. Não nos interessa seu diagnóstico capitalista agonizante . Somos da Juventude Socialista e Progressista Democrática. Não precisamos de conselhos. O partido nos basta. Tchau. Venham comigo turma, vamos voltar para o paraíso e não essa liberdade que esse gusano nos propõe..
- Que se vayan bien. Tchau. Adiós muchachos.

FLAVIO MPINTO
Enviado por FLAVIO MPINTO em 09/02/2006
Código do texto: T109886

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Sobre o autor
FLAVIO MPINTO
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 65 anos
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