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Da loira do banheiro à sobrenatural mulher de vestido vermelho de Marilândia.

Mijavam-se de medo. Digo melhor: mijavam-se por medo. Isso de saci, mula-sem-cabeça, capeta, sempre botei mais crença que em papai Noel. A molecada do meu colégio primário, naqueles anos oitenta, talvez acreditasse mais no Noel. Mas da loira do banheiro, comungávamos o mesmo sombrio e mórbido temor.

Quando cresci só um pouco mais, desconfiei que essa estória de loira do banheiro ou “mulher de algodão”, era lorota das professoras. Uma “veaca” invencionisse das “tias” afim de evitar a pedição para ir ao banheiro na hora da aula. Elas falavam do espectro, davam diversas versões à sua origem, mas no final, ela sempre se abrigava morta-viva, no banheiro da escola. Pálida e com algodão nos burracos do nariz, para não derramar o sangue, que desprendia, em decorrência de um bárbaro assassinato.

Lembro lá longe, na quarta-série, da menina que teve de voltar pra casa para trocar as roupas de baixo. A professora nos disse que em tempo frio era comum se ter incontinência urinária. Até hoje nunca soube de alguém que tenha mijado nas calças por causa de frio. Ainda se Colatina fizesse algum frio. Medo. Puro medo.

Nos recreios íamos aos bandos no mictório. Ninguém queria terminar por último. Havia sempre as “gracinhas” de se empurrar o retardatário e fechar a porta e segurá-la para fazer o desinfeliz, que já urinara, borrar-se de medo. E como curtíamos isso! Nós, um bando de poltrinhos de ventas largas a respirar felicidade, a aproveitar da vida até o bagaço.

Lá em casa, meu avô já dizia que brincadeira tem aquilo “vermeio”, começa “bunitu” e termina feio. Feito como dito: num dia que nem estava frio, a molecada se espremia para se aliviar no mictório. Sobrei. Quando debandaram para fechar a porta, tentei segurar um franzininho, que escorregou no piso molhado de urina, batendo a testa na quina do lavatório. Uma testa rachada e o sangue novo, sem hiperbolismo, corria em bicas. Lixaram-me moralmente todos. “O grandão havia passado a perna no menininho raquítico”. Primeiros socorros: pó de café pra estancar o sangue. Coisa das merendeiras. Foram à casa do menino, que morava perto da escola, para avisar a mãe. Não estava, costurava o dia todo numa fábrica. Eram pobres. E eu mais ainda. Não me lembro de tanto mais. Embotaram-se os detalhes. Sei que depois daquele dia perdi completamente o medo da “mulher de algodão”. Ia sozinho ao banheiro. Cheguei até a horas lá dentro. Nenhuma mulher, nem mesmo a de algodão, quis fazer companhia a um bruto que machucava os pequenos.

Embotaram-me os detalhes. Mas é certo que o rachado na testa do raquítico e pobre menino cicatrizou. E eu, aos poucos, deixei de ser uma alma penada e definitivamente desacreditei em assombração.

Estas lembranças desenterraram-se há umas três semanas, quando folheando o Jornal “A Gazeta”, li a reportagem: “Jovens vêem fantasma no Pico de Liberdade, Marilândia.” A estória é mais ou menos como segue: “um grupo de sete jovens, quatro homens e três mulheres, que faziam acampamento no Pico da Liberdade, município de Marilândia, o mais alto da região, viram uma mulher de vestido vermelho e esvoaçante, flutuando, surgida do nada, perto de uma árvore. O aparecimento do espectro foi seguido de uma ventania súbita que fez cair folhas da árvore. O meu amigo Jef, o Suelinha, que é daquelas bandas, diria que fora a abstinência  de gardenal que fez aquela galera ver coisas – diria isso com riso descarado ao final. Só que tem uma coisa: os “lemão” filmaram. É bem provável que estavam a filmar quando aconteceu o fenômeno. O rapaz que gravou o vídeo ficou uma semana sem dormir. O filme foi examinado por um professor de física, de sobrenome Falqueto, que não viu qualquer indício de fralde. Aqui tenho que dizer que o dito professor é também de Marilândia.

Começo a rir quando imagino os “Lemão” descendo os três quilômetros do Cruzeiro da Pedra Alto Liberdade, de íngreme e tosca estrada que se enrosca montanha baixo. Posso até vê-los rasgando o mato no peito. Paro de rir quando imagino que algum poderia ter rachado a testa.

Já acampei naquela montanha. Curtimos uma noite inteira naquela altitude, derredor ao cruzeiro, contando estrelas; ouvindo uns versos do Maiakovsk , recitados por um amigo; ouvindo violão e voz e tentando descobrir, no frescor da noite, quais eram as cidades que se viam, nos clarões, ao longe. Até o descortinar do sol, a única coisa anormal, era nos sentirmos tão bem.

Conta-se que essa mulher fantasma, já fora vista, de vestido vermelho esvoaçante, por um agricultor, num cafezal, no entorno da montanha.

Qual será o desta alma penada?

Já ouvi por aí que almas ficam “penadas”, quando em vida cometeram erros torpes, foram cruéis e até pelo desconforto de uma grande injustiça sofrida, e assim, magoadas e desencarnadas, fazem pantominas para chamar atenção e ganhar rezas para alcançarem a luz e ter uma verdadeira passagem desta para melhor.

Estou propenso a crer que fantasmas existem na medida que desaparecem os anjos. Não os anjos de asas, que nunca se vêem, mas os anjos de carne e osso, aos quais chamamos de amigos, que acreditam em nós quando todo mundo já desacreditou, que nos tocam, que estão do nosso lado e nos dão a mão, que choram por nós e não nos fazem sentir sozinhos.

Bem, se a mulher do vestido vermelho esvoaçante de Marilândia foi injustiçada em vida e não conseguiu perdoar, talvez se tivesse amigos ou escrevesse num blog, compartilharia a sua estória e assim, um pouco aliviada, se libertaria do peso das correntes que a atam a este mundo e não mais atazanaria os “Lemão” vivos da nossa querida “town”.

                    www.cronicasdojoel.blogspot.com
Joel Rogerio
Enviado por Joel Rogerio em 09/02/2006
Código do texto: T109900
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Sobre o autor
Joel Rogerio
Colatina - Espírito Santo - Brasil
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