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Tragédia cotidiana

O homem adentrou o consultório com o olhar soturno e triste. A auxiliar de enfermagem que o acompanhava lembrou ao médico: Doutor, esse senhor é o pai do rapaz que foi assassinado domingo! O homem soluçou num choro entrecortado quando o médico deu-lhe os pêsames, apertando demoradamente sua mão como a buscar conforto. O profissional calejado por anos de experiência em situações semelhantes sentiu o peso da emoção daquele momento tocante. Um homem adulto reduzido à condição de sofredor e desamparado. Todo o orgulho destruído e as esperanças destroçadas.

-Dotô, isso não se faz nem com um cachorro! Eu não sabia que estava acontecendo essa tragédia em minha família. Sempre trabalhei para o bem da minha casa e do meu filho. Filho único, Dotô... dezoito anos. Um assassino cruel, foragido da Paraíba, onde já tinha matado três pessoas, fez do meu filho um refém das drogas. Eu não sabia de nada. A mãe dele suportava tudo calada e nada me dizia com medo da reação que eu poderia ter. Fui descobrir há pouco tempo quando ele, num rompante de fúria quebrou os móveis da casa. Castiguei-o . Me revoltei no primeiro momento e disse-lhe que iria entregá-lo à polícia. Chegava em casa com os olhos duros e vermelhos. Dizia à sua mãe: Mãe, quando a senhora me ver nesse estado não me repreenda e nem tente me impedir, pois eu não sei o que serei capaz de fazer contra a senhora. Se o pai me entregar à polícia eu vou matá-lo! -Era um rapaz estudioso...tão bom! Quando ele desistiu de estudar eu desconfiei que havia algo estranho, mas como ele seguiu trabalhando não aprofundei minhas suspeitas.

- Como aconteceu o crime, Seu Fulano? -Ah, Dotô, uma covardia das brabas. Estavam, ele, o assassino e uma jovem, trancados no quarto de uma casa vizinha, fumando pedras de crack. O tal de Biro-Biro já havia fumado pra mais de dez pedras e estava fora de si. Em dado momento cismou que ouvia sirenes da polícia cercando a casa. Pegou o revólver e, assustado com as alucinações, mirou para a cabeça do filho de oito anos da jovem que os fazia companhia. Dizia: é o Diabo....vou matá-lo! Meu filho intercedeu para que não finalizasse o seu intento. O bandido ficou agitado e, quando o meu filho levantou-se para ir buscar água , o facínora reagiu ao movimento atirando contra o seu peito por duas vezes seguidas. O segundo tiro varou as duas mãos que tentavam proteger o primeiro ferimento. Deu mais três tiros e o meu filho caiu morto. Doido e alucinado, carregou novamente a arma e deu mais dois tiros no corpo inerte do meu querido menino. A polícia depois o baleou num terreno baldio. Está na UTI...morre, não morre!

-Tinha até prometido ao meu filho que venderia a casa e que nos mudaríamos para um lugar distante daqui. Ele passou uma semana sem sair para a rua. A pressão foi tanta que ele me disse: Pai, eu não posso sair daqui de dentro. Se eu sair eles me matam! No domingo fui almoçar com a minha irmã em outro bairro. Chamei-o para me acompanhar. Ele até tomou banho e mudou de roupa, mas de última hora desistiu e não foi comigo. Às duas horas me ligaram dizendo do ocorrido. É triste,Dotô!

O médico sabia da dor que o homem à sua frente enfrentava. Não disse mais nada. Tudo que pudesse falar naquele momento soaria falso e demagógico. O homem enxugou as lágrimas e falou resignado: Estou triste e revoltado, mas estou conformado pois onde ele está agora sei que está em paz! O homem despediu-se e saiu cabisbaixo. O médico suspirou profundo e chamou o próximo cliente da lista.


Edmar Claudio
Enviado por Edmar Claudio em 04/05/2006
Código do texto: T150057
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Sobre o autor
Edmar Claudio
Natal - Rio Grande do Norte - Brasil
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Edmar Claudio