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NUM BOTECO QUALQUER (um conto de futebol)

Transcorria mais um domingo qualquer. Daqueles, que são mais quaisquer ainda, quando acontecem em um bairro pobre na periferia da cidade de São Paulo.

Era também, um boteco qualquer. Não muito limpo, com um balcão frigorífico antigo onde através do vidro rachado, e fosco pelo tempo, viam-se algumas cervejas sendo mal geladas. Em cima do balcão, o indefectível pano branco. Na parede, um enorme pôster do Palmeiras campeão paulista de 1996 e, na prateleira ao lado, alguns troféus do Ameriquinha - o time do bairro.

Mais de uma dezena de fregueses – todos moradores do bairro – consumiam umas louras e umas branquinhas. O assunto predominante: futebol !

Na mesinha do canto estava seu Rafael. Um senhor de 60 anos de idade, com aparência cansada e trajando um moleton surrado. Como já estava aposentado era um habitué do bar.

Ninguém mais dava crédito às suas conversas sobre o passado futebolista. Quando tomava umas a mais, dizia que aos 17 anos, havia jogado no juvenil do Corinthians e que era considerado a maior promessa do clube, tendo sido indicado para o time profissional. Gostava de narrar alguns lances das partidas onde ele teria sido o astro principal.

O pessoal ria com o que chamavam de delírio do véio Rafa. Tinha até quem o insultasse bradando que nunca tinha visto um velho tão mentiroso.

- Porque você não virou profissional, velho? - inquiria alguém, sorrindo

- Bebida. A bebida foi a minha desgraça ! – afirmava com voz impassível.

Sua resposta não convencia a ninguém  – e a gozação recrudescia.

Num domingo qualquer, naquele boteco qualquer e com pessoas quaisquer, algo inusitado estava para acontecer.

Do outro lado da rua parou um carro importado com vidros escuros.Um senhor de meia idade saiu do veículo e tomou a direção do bar. Ao adentrar, os presentes transformaram-se – alguns ficaram boquiabertos. Fitavam o cidadão como se vissem uma assombração. O silencio tomou conta do bar.

- Boa tarde, pessoal. Vocês sabem onde encontro o Rafael Arruda? – indagou o inesperado visitante

Os, antes falastrões agora pareciam crianças autistas. Até que, alguém saiu do torpor e apontou para a mesa onde estava o véio Rafa.

- Meu amigo Rafael, há quanto tempo eu te procuro. Você sumiu, cara ! Vim te dar um abraço e te convidar para trabalhar comigo na escolinha de futebol – dava para sentir a emoção na voz do recém chegado.

Ato seguinte, houve um forte e demorado abraço entre os dois. Os mais próximos da cena juram ter visto lágrimas brotando nos olhos de ambos.

- Aí, pessoal obrigado, hein! Olha, esse cara aqui jogava mais do que eu - enfiou tanta bola debaixo das minhas canetas. Era um cracão! – disse o visitante antes de ir para o carro juntamente com o amigo.

Todos sorriram para ele, respeitosamente. Alguns deram tapinhas nas costas, outros queriam apertar sua mão. E o Jorge dá farmácia – corinthiano roxo - não resistiu:

- Ô Rivelino, me dá um autografo? Pode assinar aqui mesmo, na camisa do timão.
 
Dionisio Teles
Enviado por Dionisio Teles em 29/05/2006
Reeditado em 29/07/2006
Código do texto: T165208

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Sobre o autor
Dionisio Teles
Barueri - São Paulo - Brasil, 64 anos
177 textos (43609 leituras)
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Dionisio Teles