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CALABOUÇO

Certa vez, no restaurante do calabouço, comemorava-se a passagem da data natalina, para a qual foram convidados os estudantes a participarem, tendo como ponto alto do programa, a celebração da Missa do Galo - momento especial da Ceia do Natal.  A festa concentrava-se no ato religioso, celebrado por um padre, também estudante, que aos gritos prégava e ninguém escutava. Circundando o palanque armado dentro  do refeitório, figuras de papelão representavam personagens do Presépio, atraindo a atenção dos presentes - um bode pintado em preto, com seus grandes “culhões” pendurados, olhando para o altar em que o sacerdote oferecia  o sacrifício da transformação do pão e do vinho.   No salão, imensa fila encompridava-se, comprimida pela tomada de posição e ansiedade  do esperado e importante momento: - “A hora de servir a ceia.” Costumeiramente, naquele lugar, diziam alguns: -“Oferecia-se uma ração em estado de deterioração, amassada com os pés, regrada à ratazanas, completada ao tempero de baratas, marinheiros e gorgulhos”.Os talheres tiniam nas bandejas, misturando as bravezas dos comensais à voz do pregador, que no final de tudo, fitou resmungando a figura do bode e chegou-se aos outros na fila. Alguns metros dali, em volta de uma mesa, gerou-se um tumulto em que alguém passou mal...um estudante engasgou-se com uma rã que pulou do copo de leite e desceu pela sua garganta; às pressas levado ao Pronto- Socorro, o médico constatou que os remexidos  sentidos por dentro, não eram  da rã e sim, do leite arruinado que havia sido despejado no seu estômago.  Na frente do prédio, uma multidão  aglutinou-se, cujo objetivo era sair em mutirão ao Palácio do Governador, com a finalidade de reivindicar melhor alimentação e equipamentos para a Policlínica instalada próximo ao Aeroporto Santo Dumont. Em dado momento,ouviu-se tiros zunindo, uma bala da polícia varou a coxa de um colega, levando-o a amputação, consequentemente, ao mesmo tempo, interrompendo sua carreira.
Em pouco  tempo, veio a tal “revolução” que exterminou, fechou o  restaurante do Calabouço e a Policlínica; incendiou a sede das entidades estudantis: UNE, UBE, UME, AMES e outras representações estaduais.  Muitos se fizeram surdos e mudos; outros tiveram os órgãos genitais paralisados e até desapareceram não chegando a  ninguém, a notícia dos seus paradeiros. Os tanques enfeavam as praças e ruas do centro, onde em passeata o corpo morto de um estudante foi acompanhado pelas alamedas, escadarias do Teatro Municipal e Câmara dos deputados ao cheiro de gás lacrimogênio.  A força foi constituída sob os aplausos de uma outra passeata que mais parecia, procissão.  Senhoras da sociedade recolhiam
cordões, pulseiras, anéis de ouro, para ajudar o país a sair do caos em que afirmavam, estar submerso.  A partir daí, diversos estudantes desapareceram, outros encontraram dentro do bom-senso uma maneira de sobreviver, sem servir de isca.  Aos poucos foi chegando o resto do rebanho dando “vivas” ao poder da ditadura – única salvação dos seus destroços.- dentro do mundo neutro que sustenta o porte da geração, até o raiar de um “NOVO TEMPO”.
Zecar
Enviado por Zecar em 13/05/2005
Reeditado em 01/07/2016
Código do texto: T16651
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Zecar
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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