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(imagem "Girassol", de Paula Neems, http://www.neems.nl/paula/girassol.htm)

A MULHER GIRASSOL

          Um cheiro de terra úmida, como grama depois da chuva,e ela, vaga e distraída,descobriu, meio surpresa, que tudo vinha dela mesma. 

          Uma chuva que vinha do nada, de um ponto que já esquecera, saía como um convite, quase uma intimaçao,numa espécie de purificaçao. Impregnou-se de si, grudou em sua própria pele, como a temer perder-se de si. Ainda o sol nao saíra, abriu um pouco a janela e os botoes da camisola e espanto: um girassol enorme brotara-lhe no peito. Entre espantada e surpresa, sorriu feliz porque sentia o peito aquecido e ela sentiu que era bom. Algum tempo passou nessa espécie de êxtase de descoberta até que se lembrasse do trabalho que a esperava. 

          A caminho do trabalho, que nem era tao distante, foi sentindo o girassol acomodar-se no peito, pétala por pétala, o caule movimentando-se como se seguisse o curso do sangue nas veias. Ia aquecendo-lhe o peito e convidando-a, a cada pequeno canteiro, a parar para acomodar-se em meio a grama. Sorriu pra si mesma e seu novo companheiro, como a pedir que tivesse paciência, porque a vida, as contas e o trabalho nao podiam aguardar. 

          De todas as formas, como o sol brilhava mais lindo do que em qualquer outro dia, obedeceu aos comandos do girassol e parou por alguns segundos, como a enterrar as raízes de ambos no pequeno pedaço de grama. Agradecido, o amigo aqueceu-lhe o peito quase a queimar. Chegou a temer que rasgasse-lhe o vestido e se mostrasse, exibicionista, aos passantes que, certamente, nao poderiam compreender-lhe o ar de satisfaçao... 

          Seguiu, assim, como quem está em outro mundo, ignorando o mundo a sua volta e seu habitual “Bom dia” lançou-se no ar com um dourado imenso que nao podia explicar. Sua nova solidao, acompanhada de pétalas enormes e quentes, transformavam-na em uma entidade a parte. Abria-se ao sol e a roupa lhe incomodava. Precisava expor o peito e libertar a flor. Seus seios agora eram pétalas do girassol e apontavam para o calor solar. 

          Saiu do escritório e buscou um lugar ao sol, exposta e nua, com todas as roupas que a cobriam para dar alimento ao seu companheiro. Sabia que girassóis no peito nao se abrem todos os dias. Sao flores caprichosas e podem nao durar muito tempo. Deixou que se banhasse quanto pudesse e agradeceu a tudo o que conhecia pela flor que ali estava, mesmo que logo se fosse...


Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 05/07/2006
Código do texto: T187947

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
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Débora Denadai