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Domingo nublado numa cidade boleira.

Domingo nublado numa cidade boleira.

“Tatu não vê a lua...” ( João Guimarães Rosa, no texto “ A menina de lá”)


O Rio de Janeiro continua lindo. E hoje, um domingo nublado, está mais incontestavelmente bonito do que nunca. Vai ter mais um jogo no Maracanã. Ôpa, melhor, não será mais um jogo no Maracanã: É Flamengo e Vasco. As duas maiores torcidas – clubes de multidões Brasil afora. Um nascido elitista e que caiu nas graças da massa, o outro nascido no povo e continua o pendão de milhões. Rio não há igual: É o único lugar onde a Copa não acabou. Estes dois grandes rivais retornam, na quarta-feira, ao grande templo do futebol, para a primeira batalha da decisão da Copa do Brasil (para muitos dessas torcidas, o título para seu clube é mais importante que um hexa da seleção brasileira, que agora é a seleção de Cafu, Roberto Carlos e Parreira).

Mas há uma outra cidade, a umas 415 milhas daquele Corcovado com seu Cristo Redentor – não tão distante, se considerarmos a dimensão continental do Brasil – uma cidade que também ostenta o seu monumento de Cristo de braços abertos sobre um rio, um rio mansamente a deslizar as suas águas vindas das Minas Gerais. A graça da cidade? Colatina. Com o seu rio chamado Doce, que a soma em duas partes.

E daí? Não, não tem essa de e daí! O caso é que renasce nesta cidade de gente boa, um clube de futebol, que nas priscas eras de chumbo – diziam os mais velhos – tratava com esmero o “balão de couro”. A turma mais atenta que freqüenta o Gatão, e que bebe pra não perder o juízo, já deve ter visto um quadro em branco e preto com a foto de um time de futebol de camisas listradas verticalmente, um tanto Botafogo, ou Atlético Mineiro, como queiram – pois este é o Clube Atlético Colatinense. E que hoje já não veste “shorts” tão apertadinhos como na foto.

O almoço fica pra mais tarde. O jogo está marcado para as dez e meia. É segunda divisão do campeonato capixaba, a torcida não se pode dar ao luxo de horário para comer. Convidei o meu irmão mais moço e a minha cunhada para irmos, eles são fanáticos por futebol, mas a Lívia tinha chegado há dois meses – um bebê muito tenro para freqüentar o municipal “Justiniano de Mello e Silva”, ainda mais que o Coutinho dizia na Difusora que uma nuvem passageira semeava uma chuva miúda pelo estádio, mas eles ficaram “piabando” de vontade. Lembrei-me do Lemão Luxinger, mas qual, este com seus modos questionáveis poderá me avexar. Recordo da última vez, em companhia dele, na torcida pelo CTE Colatina, do Edmílson Ratinho. Ele consumiu uma sacolinha inteira de amendoins torrados, arremessando na folga da bermuda dos torcedores sentados próximos – queria depositar o amendoim no cofrinho – dizia com jeito de moleque. Era um divertimento, mas nem todo mundo quer saber de brincar essa brincadeira do “cofrinho”. Mas quem tem irmão não atravessa ponte sozinho. Fui com o meu irmão mais velho, que não é tanto fã assim de futebol, mas é pau pra toda obra. Dois “legítimos” colatinenses, nascidos em Rio Bananal, a caminho, para se juntar a centenas, na torcida pelo time da cidade.

Ao colocar a vista no gramado, os times já estavam lá. Grená, era o uniforme do nosso adversário, o Sul América de Conceição da Barra. Bastou a pelota rolar para tomar gosto pelo jogo. O nosso time sabia jogar, fazia girar a bola e os alas subiam e tinham fôlego como o Cicinho e o Gilberto, para voltar e não tomar bola nas costas. Logo veio o primeiro, que na verdade foi meio sem querer, num cruzamento mais que bem sucedido. Lá estava a branquinha no barbante. Foi o que teve o primeiro tempo.

No tempo derradeiro estava por vir mais três. Seria certamente mais, se na regra do árbitro constasse pênaltis. No lance mais escancarado de penal, o Índio, com seus trinta e oito anos, recebeu um lançamento e se estampou pedalando cara-a-cara com o goleiro. Tomou um rapa do camisa número um, que levou até o meu irmão, que é um cara muito educado, a dizer cobras e lagartos do juiz.

Estava tão bom que a galera gritava olé, olé! Quando uma furtiva chuva, fina e oblíqua, começou a castigar a cara de toda gente no estádio, e já não se via aquela vistosa e remota montanha que fica no sentido da Vila Lenira, totalmente tomada de névoa – eis que percebo que as crianças cresceram – o rapaz, que entrara para o segundo tempo, era o filho do Fusquinha – ontem era um menino, e estava lá jogando fácil, fazendo magistralmente o terceiro gol e nos dando a expectativa de futuro craque. Agora já podia chover à vontade, tinha me vacinado mesmo contra a gripe.

É ótimo um domingo numa cidade boleira, mesmo que os nossos times não tenham Zidanes e Materazzis, não tenham um apelo de Vasco e Flamengo. Aqui a gente se encontra com a nossa gente e se abraça e se sorri e se sabe que logo o time estará na primeira divisão e que haverá um tempo em que o Colatinense também será um campeão de audiência. Não duvidem do que é capaz um time que ressuscita.

Alô, alô torcida do Clube Atlético Colatinense, aquele abraço!

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Joel Rogerio
Enviado por Joel Rogerio em 18/07/2006
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Sobre o autor
Joel Rogerio
Colatina - Espírito Santo - Brasil
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