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Os Pingos da Minha Vida



  OS PINGOS DA MINHA VIDA

Os pingos da chuva
Caminhavam pelo vidro da janela do ônibus,
Até se desmancharem pelo vento...
Da mesma forma,
Caminharam e se desmancharam,
No vidro do meu coração,
As mulheres da minha vida...

Algumas, como pingos mais grossos,
Resistiram mais
Ao vento deixado
No rastro da minha vida;
Outras, pingos bem menores,
Logo corriam vidro afora
E se exterminavam...

Que me lembre,
Houve três pingos grossos,
Que marcaram bem este vidro chuviscado de lembranças...

O primeiro, o maior de todos,
Foi se consumindo aos poucos,
Resistindo valentemente ao vento
E custando a escorrer pelo vidro...
Quando se desmanchou, afinal,
Deixou três pinguinhos em seu lugar...

O segundo, viçoso e lindo, refletindo a luz do sol
Que apareceu depois da chuva,
Acabou não resistindo,
Quando a chuva voltou
E o vento marcante da minha existência sem sol,
Soprou com força
E o desmanchou.
Este pingo gracioso já não refletia o sol
Que desaparecera em mim;
Perdera o brilho e se enfraquecera;
Insistira, porém, em deixar, antes de desaparecer,
Um pequeno pingo, em seu lugar
Que refletisse a imagem
Do meu corpo sem luz...
Mas nem isso
O esbelto e saliente pingo conseguiu...
E, no momento em que se desmanchou,
Deixou, suavemente,
Um pequeno lago
De águas claras
Em seu lugar;
Como se não fosse um pingo de chuva,
Mas uma tristonha lágrima de adeus
Que se desmanchava...

O terceiro pingo,
Este sim, marcou bem o vidro molhado,
Salpicado do meu coração.
Começou a escorrer pequeno,
Quase sem ser notado.
Mas logo foi crescendo, crescendo,
Enquanto escorria,
Marcando fortemente o vidro
Da janela do ônibus
Que é a minha vida...
Enquanto crescia, crescia,
Este pingo, que já era agora uma verdadeira pérola,
Exalava um suave, mas forte perfume,
Que, da janela,
Difundiu-se por todo o ônibus...
E todos que viajavam comigo
O sentiram muito bem
E, na viagem da existência,
Até tentaram desmanchá-lo,
Para que parasse de exalar
Seu perfume inebriante
E os deixassem continuar
O sono tranqüilo
De suas vidas sem ideal...

Mas o pingo continuou a riscar o vidro,
Dando, com o vento,
Pequenos saltos
Na sua trajetória,
Parecendo até que iria se desmanchar;
Mas não. Continuava no vidro.
Até aumentava ainda mais,
Após cada salto...
E exalava, cada vez mais forte,
O seu perfume suave,
Como se feito das mais lindas flores
E dos mais saborosos frutos...

O perfume me envolveu totalmente
E o meu pobre ser
Voltou a ter sol,
E a brilhar muito,
Iluminando as sombras que jaziam
No fundo do meu coração...
A luz que agora resplandecia em mim
Iluminava a pérola
Que, toda brilhante,
Refletia a minha luz.
E o brilho era tão forte
Que até hoje ainda o vejo,
Vindo daquele grande pingo,
Como uma lua cheia
Iluminando a noite da minha vida.

Eleomar Ziglia Lopes-Machado,
Estrada federal Porto Alegre-Pelotas, em 04 de Outubro de 1980.

Eleomar Ziglia LopesMachado
Enviado por Eleomar Ziglia LopesMachado em 06/08/2006
Código do texto: T210123
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Sobre o autor
Eleomar Ziglia LopesMachado
Tupã - São Paulo - Brasil, 73 anos
23 textos (1060 leituras)
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