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A ÚLTIMA BATALHA

Ele foi tocado pelas trevas
A última batalha
Só, fechado entre quatro paredes julgou endoidecer, mas aquele era de facto o último local que o poderia livrar da loucura, ali, só, afastado dos outros, afastado de tudo, menos de si próprio. E foi ali, nas derradeiras horas que descobriu o seu maior inimigo após tantas e tantas batalhas onde defrontou perigos e adversários inimagináveis para o comum dos mortais, tenebrosos, capazes de assombrar mil e uma e mais mil gerações, que nunca o fizeram vacilar, que nunca o fizeram ter medo, foi ali que descobriu o seu maior e mais arrepiante adversário: ele próprio. Sempre soube que o demónio existia, sempre soube que ele espreitava na sombra uma oportunidade para se revelar, mas por falta de tempo ou por benéfica negligência nunca lhe dera ouvidos, até ali, aquele local onde se refugiara depois de mais uma refrega perdida, que julgou e jurou ser a última, nem sequer imaginando que entre paredes habitava o seu maior monstro.
Quando se apercebeu do perigo ainda quis sair, mas lá fora habitavam os fantasmas da derrota que o queriam devorar vivo, o que o assustava de morte apesar da tal ausência de medo…Mas que diabo! Ele não poderia ser pior, mas era…para exorcizar o reflexo que via no espelho do quarto desatou a beber a vasta garrafeira tida e a fumar desalmadamente, julgando esquecer-se, mas quanto mais bebia e fumava mais crescia o monstro coriáceo que o seduzia por ao mesmo tempo parecer tão insignificantemente pequeno e insignificante, e ao mesmo tempo lhe despertar a curiosidade sobre a verdadeira dimensão e força desta sombra, deste ser sem rosto que na alma era a sua alma.
Por fim o peso de tantos anos e derrotas de repente caíram sobre ele, apercebendo-se que o monstro vencera para sempre
Num derradeiro assomo de religiosidade e de orgulho decidiu que não iria parar ao inferno, pois o inferno estava ele a viver, sempre o vivera mas apenas o descobrira naquelas dolorosas e marcantes horas.
Não iria perder mais nada, nem a si próprio
O som duma bala foi a última coisa que ouviu
Sem o sentir, sem o perceber verdadeiramente aquela fora
A última batalha
Miguel Patrício Gomes
Enviado por Miguel Patrício Gomes em 31/08/2006
Código do texto: T229493
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Miguel Patrício Gomes
Portugal
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Miguel Patrício Gomes