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O odiento

As televisões repetiram a imagem o dia inteiro; se foi um tiro na nuca ou na cabeça, não ficou muito claro, mas foi mortal, instantaneamente mortal e o corpo desarmou no chão numa fração de segundo. Quando iniciou a queda, estava, provavelmente, vivo, ao chegar ao chão já estava morto. Deve ter acertado a espinha e os músculos de sustentação dos ossos afrouxaram . Mais tarde o assassino declarou que não pretendia matar, que foi tudo um acidente, e que ficou tão instantaneamente surpreso como o espírito do morto quando chegou do outro lado. A câmara do supermercado filmou tudo, ele apontou a arma e atirou. Talvez não soubesse que a arma dispara tão fácil, e daí tenha se assustado tanto com o barulho, que a vítima não chegou a escutar. Acidente? Não, acidente foi o seu nascimento, o nascimento dos dois, todos os nascimentos. Alguém que tenha a ponta de uma arma apontada contra si fica paralisado pelo terror e se deixa matar sem qualquer reação, exceto juntar as mãos numa súplica pela compaixão. Deveria ter levantado as mãos acima da cabeça, numa rendição total... Quem teria coragem de atirar num homem rendido? Somente um nazista filho da puta. Ou um daqueles comunistas assustados que executaram o czar Nicolau, o assassino, e toda a sua descendência. Ou aquele maluco que matou o jornalista Tim, ou soldados israelenses respondendo a pedradas de mísseis palestinos, ou o jordaniano que mata livremente no Iraque, ou o soldado americano que alivia o sofrimento de um ferido, ou o coronel vietnamita que atira na cabeça do prisioneiro, ou o encapuzado da klan que extermina os negros de sua área, ou o traficante carioca que assalta um policial de folga, ou o estudante baiano que fuzila no cinema, ou o rei do cangaço, Lampião, dando o exemplo no sertão, ou os soldados da república atacando o Conselheiro, ou soldados brasileiros na guerra ao Paraguai, ou, ou, ou, ou.  Eles têm o instinto assassino, matam porque gostam de matar. Naturalmente. Talvez tenham estranhado a primeira vez; mas depois, uma, duas, três vezes, vira um ato corriqueiro; como matar  um porco ou uma galinha. E esse cara que matou o vigia no supermercado, fez perfeitamente. Pode ser que já tenha matado antes, se não o fez vai fazer de novo, nos cafundós das caatingas, onde não há câmaras para registrar, ninguém vai ficar sabendo. Dessa vez se deu mal, todo o país viu. Todo o mundo, a mídia sanguinolenta global teve o seu espetáculo. O estado de alerta permanente da ceeneene foi bem recompensado. Uma boa diversão para quem já está cansando das coisas do Iraque e do Oriente Médio. Logo, um novo fato vai surgir para alimentar as goelas do monstro informativo.
 Que seja esse: agora eu vou dormir. Vou desligar essa bosta e vou dormir.
Jacques Levin
Enviado por Jacques Levin em 02/09/2006
Reeditado em 07/09/2006
Código do texto: T230835

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Sobre o autor
Jacques Levin
Vassouras - Rio de Janeiro - Brasil
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Jacques Levin