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 para minha amiga M.L., que me forneceu os elementos da história e me pediu que a contasse do meu jeitinho...

MELHOR QUE CIANURETO


               Não havia muito a fazer. Domingo deveria ser declarado o Dia Universal do Tédio. Alguma coisa como The Boring Day. Sentou-se no canto mais escondido do café, como de costume e já foi pegando seu livro. Como de costume. O garçom de sempre deu-lhe o “bom dia, senhora” de sempre, com o sorriso ensaiado de todas as vezes e entregou-lhe o cardápio costumeiro, que, como de costume era inútil, já que ela iria pedir o de sempre. 

               Feito o pedido, o de sempre, tentou ler, como de costume. Alguma coisa saiu do programa e ela começou a pensar. Não que não costumasse pensar, muito ao contrário. Este, seu maior problema: pensar demais. Só não queria pensar naquele assunto. Ele. O ele que ela já dera por perdido, por encerrado, mas que volta e meia aparecia. Olhou para o maço de cigarros na bolsa e pensou que o cigarro e ele tinham algo em comum. Não se livrava dos dois em definitivo. Apenas diminuía as doses das drogas. 

               E deu pra imaginar-se num discurso rápido e eficiente para o próximo encontro costumeiro. Algo indolor, educado mas tão eficiente quanto uma boa dose de cianureto. “O que não seria má idéia”, não pode evitar o pensamento com um sorrisinho irônico. Também não iria funcionar. Ele poderia morrer e continuar vivo dentro dela. Tinha que haver uma saída. Algo mais fácil, mas igualmente eficiente.

               Lembrou-se das várias vezes que ali estivera com ele, que aliás sempre reclamava do serviço, que os garçons eram lentos, etc. Parecia que agora o lento era ele. Lento pra ver as coisas, lento pra perceber, lento pra decidir se ia ou se desocupava. Lento, lento, lento. “Ele opera em html”, pensou rindo...”Hoje Tá Muito Lento...perfeito pra ele!”, e riu sem que ninguém em volta pudesse entender seus sorrisos solitários e completamente fora de seu padrão usual. Ou será que a lenta era ela? Seria ela a que não percebia as coisas como eram de fato? Foi aí que pegou... 

               Maus hábitos e vícios: ponto número 1 do planejamento. Providência: cortar. O cigarro já tinha sido diminuído para menos da metade. Mas,...e Ele? Tentara cortar pela raiz, mas ele deu um jeitinho de voltarem a se falar. E quando ela achava que o mal estava curado, lá estava ele, em doses periódicas bem diante de seu nariz, com o sorriso cheio de dentes e olhares convidativos... E lá ia ela. Que raiva não ser mais fria, não ser adequada, conveniente e dentro dos padrões. Que raiva não poder jogar o mesmo joguinho banal...

               De repente, na mesa do casal ao lado, já antigos conhecidos e frequentadores do lugar, como de costume, cuja conversa ela observara vez por outra, algo muda. A moça,  até então, agindo da maneira carinhosamente costumeira, se levanta, não sem antes dizer, com uma calma não usual: “Você não percebeu, querido...mas eu venho reduzindo minhas doses de você homeopaticamente, transformando meus sentimentos por você naquilo que você me transformou: algo para ser usado esporadicamente e de forma banal. Agora já tô bem de você. Não preciso mais das doses. A gente se vê.” E saiu sorrindo, como se nada houvera, deixando o sujeito com cara de “Meu-Deus-o-qué-isso?”. 

               Sorriu por dentro e começou a pensar que aquele não tinha sido, afinal, um domingo costumeiro. E que finalmente ela achara algo melhor do que cianureto.

Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 24/09/2006
Reeditado em 24/09/2006
Código do texto: T248362

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
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Débora Denadai