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Páginas (avulsas) da vida





1 _ Um dia, vi um homem, aflito,  correndo na rua. Ia  atrás de um caminhão de lixo. Gritava. Notei seu rosto coberto de suor pelo esforço. Logo,  percebi seu alívio quando o caminhão  parou, a seu pedido. Quereria de volta algum tesouro? O que estaria naquele saco levado, num reflexo, pelo lixeiro?
Ao receber o saco de volta, vi que o rosto do homem  parecia iluminado.  Seria o quê o motivo de sua alegria?  Surpreendi-me. Era uma porção de “tirinhas” de sandálias havainas que o homem costuma deixar  dentro de um saco grande de plástico preto na porta de sua loja.

2 _ Uma vez li uma história. Falava de uma mulher que, uma noite, o marido viu iluminada. Ela havia se deitado num horário fora do costume, usava uma roupa de fina seda e trazia os cabelos negros-longos dispersos no travesseiro. Muito fora do costume. Ao olhar, de modo fora do costume, para rosto da mulher com quem dormia há mais de três décadas,  o marido notou que ela  tinha no rosto uma luz desconhecida. Sentou-se a seu lado e ficou  noite na vigia de uma imagem revelada,  depois de tanto tempo de vida em comum.  Antes mesmo do amanhecer, o marido  percebeu que aquela mulher há muito havia deixado de ser sua. E que ele, por  costume, deixara apagada a luz que houvera nos   seus primeiros momentos de vida a dois.

3 _ “Eu te recebo e prometo ser fiel na alegria e na tristeza”.... Ela ouvira e repetira esta frase em um momento muito especial........  Uma vez,  a mulher, só,  foi ao enlace de uma amiga. A amiga estava radiante e parecia personagem de uma história de príncipes e princesas.  A frase, tanto ouvida em tantos enlaces que presenciara,  naquele  momento,  pareceu-lhe vazia, distante. “Na saúde e na doença”... “até que a morte nos separe”... Vazio. Distante. Longe  como aquele homem que não a seguia mais na vida, nem na  saúde, nem na doença. Então, a mulher supôs  que não é a morte que  separa. O que desarmoniza  mesmo é a vida.

4 _ Nesse dia, a mulher ficou radiante. O primeiro dia, desde que  tristeza passara a ocupar sua intimidade. Desde quando o homem de seus sonhos desaparecera no rio, sem deixar nada no barco, além  do molinete, o samburá com a  vasilha ainda  cheia de minhocas e uma camiseta verde-amarela, que usava em todas as pescas. Um sonho a levara a entrar no quarto de despejo da casa, lugar antes proibido (fosse ela lá arrumar as tralhas,  estaria atrapalhando a organização do marido). Sonhara que, naquele cômodo das coisas de pouco uso,  havia uma arca do tesouro.  Não ansiava  tesouro nenhum deste mundo, que o seu mais precioso bem,  a água havia sugado. Logo na entrada,  foi surpreendida com a visão de uma caixa grande, de tampa de madeira maciça.  Cismou de levantar a tampa da caixa. Queria conhecer  o que aquele homem seco, sem açúcar e sem afeto, guardara com resguardado empenho.  Descobriu pétalas secas de flores, papel de bombom, discos antigos, livros, cartas, bilhetes, ingressos de cinema........  Encontrou de tudo aquilo que havia feito parte de cada momento de suas vidas.

5 _ Uma vez a mulher resolver consultar uma cartomante. Havia muito que carecia de sorte. Era pobre de tudo. Sem nada mesmo. Nem família, nem amigos, nem trabalho, nem rezas. A cartomante vivia cercada de gatos pretos e não cheirava bem. Mas, pedia o pagamento antes de jogar as cartas. Dava mais sorte. Ela falou de um moço moreno, lindo de morrer,  que lhe atravessava a vida. Podia topar com ele logo na saída ou quando chegasse em casa. Não foi na saída nem na chegada. Foi numa esquina e ainda estava dia claro. Um moço moreno, não tão lindo, pediu-lhe a bolsa. Ela lhe deu um sorriso. Ele lhe deu um tiro no peito e fugiu com uma bolsa puída, pobre de tudo.







Terezinha Pereira
Enviado por Terezinha Pereira em 09/10/2006
Código do texto: T260128
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Sobre a autora
Terezinha Pereira
Pará de Minas - Minas Gerais - Brasil, 68 anos
124 textos (52824 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 02/12/16 18:22)