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Fábula de um Insone




Nem sono, nem vigília. Hora enevoada que cruza a consciência e mergulha num submundo de sonhos em subsolos que sonham em se agarrar a formas e vir à luz. Só resta mesmo um entregar-se - devaneio que queima a flor da pele. Sem ela, ele é tulipa vazia, infecundo, num  tédio epidêmico que se alastra em suas veias. Seu adormecer nunca é preciso. Por vezes se alonga como o braço de uma bailarina e lá em cima se perde, estrela matutina. Amanhã, o tempo se encurtará na urgência das horas, em compromissos, viadutos, faróis de cores frias e estáticas num click duro e surdo. Condenado a um inexorável automatismo, alheio a sua singularidade, seus anseios mais profundos, vitrificados uivarão numa película de plástico que nunca rompe. Os sonhos ainda estarão ali, latentes numa aurora que não vem, mesmo quando fala ao telefone, comprando o cartão de zona azul com um gentil sorriso ou quando almoça a fome do que não se come. Há muito esqueceu de rezar, já não lembra sequer uma frase. A pre_ocupação, "preciso acordar disposto" - ele pensa. Vira-se várias vezes na cama por fim, senta. Acende a luz do abajur. Solidão travestida de medo. O fantasma que mais insiste na penumbra do quarto é a dor de uma distância morosa entre intenção e ato, nada de fato. Ele se deita novamente. Ajeita o travesseiro na esperança de um conforto para os pensamentos. Fecha os olhos e aporta numa imagem solitária, coberta de reminiscências, fina encadernação que se abre em páginas evadidas, bandeando a vida como ilustração infantil. Velha tática: boas lembranças sempre ajudam a adormecer. Agora, seus pés descalços pisam a grama úmida na velha fazenda - dois olhos negros de criança - ele se debruça no antigo poço, coberto por folhas de heras, eras que se perdem num simples pensar: bastaria o calor e a maciez do corpo dela, somente isso e ele desposaria para sempre suas mãos, em superexitação, pura explosão de luz, gozo até chegar à tepidez e a calma, mas tudo que tem naquele momento é um divagar impreciso - belezas incertas...depois, o olho já não alcança – tão fundo é o poço! Ele atira uma moeda e a prata rodopia informe, se perde lá longe, apenas um tilintar... fraco então, ele relembra que ali mora uma força poderosa que com astúcia flauteia a dor, entorpece serpentes que amanhã secarão num sol em brasa. É uma força cálida e natural, sem promessas de vitória. Não delega, nem usurpa poderes, apenas os ignora. Aleatória a tudo - pulsa, cresce e arrebenta em vida. Isso ele aprendeu no escuro dos seus medos, quando colocava o rosto entre os seios dela, sentindo o perfume de lavanda. Ela, que pastoreia seus afetos, os mais mansos. Agora, seu corpo se curva fetal, frágil sobre os lençóis brancos. Ele vê a corda do poço como um fio luminoso, descendo na escuridão, momento de tensão seguido de afrouxamento - ela retorna à superfície trazendo a verdadeira ablução: a cópula da palavra com o silêncio em comunhão. A única religião decorosa e eficaz que dispensa sacrifícios e sangue. Seu corpo estremece levemente, suas pálpebras pesam e o livro lhe cai das mãos. Ele por fim adormece no plasma azul dos olhos dela.

Ana Valéria Sessa
Enviado por Ana Valéria Sessa em 12/10/2006
Reeditado em 26/04/2007
Código do texto: T262660

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Sobre a autora
Ana Valéria Sessa
São Paulo - São Paulo - Brasil
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Ana Valéria Sessa