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FELIZ ANIVERSÁRIO

Feliz Aniversário
Conto

Tinha acabado tudo quando o Abade Aniceto derramou a última água benzida em cima do caixão ao mesmo tempo que apressado, fazia a encomenda da alma deste pobre homem a Deus.
    As flores, aquelas que nunca teve em vida oferendadas, cobriam agora o esquife, amontoando-se mortas, como num dia de Santos, transpondo as barreiras do exagero, numa inutilidade gritante a lembrar aos vivos o que é a fantochada dos seus corriqueiros hábitos fingidores dos mais puros e edolatrados sentimentos. Mal sabiam estes desgraçados acompanhantes do féretro onde repousavam os restos mortais do contador de histórias, que neste preciso momento se iniciava mais uma alucinante volta do carrossel das suas atarefadas vidas e que estas flores, ou outras iguais iriam, mais dia menos dia, mortas também, fazer parte do cenário cómico das suas próprias mortes.
   Não há forma conhecida de escapar ao incidente inevitável, então, num rasgo de perícia teatral, assumem a postura de gatos-pingados transformando o desenlace num mero e chato acontecimento a que, por obrigação, têm de assistir.
  O morto já com oitenta e nove anos feitos hoje seis de Outubro deste ano sem graça, já pouco ou nada ambicionava deste presépio sinistro e frio onde as figuras mais representativas deixaram há muito, de imitar as santas do seu congénere de Belém.
    Tinha perdido tudo aquilo que transformou em esperança na roleta da existência, no jogo sujo de uma humanidade demasiado materialista, despersonalizada e má, que nunca soube nem quer saber com quantos paus se faz uma canoa, entregando-se de alma e consciência na mãos dos tiranos que circunstancialmente comandam a embarcação deste Mundo.
   Foi-se na sua hora, precisamente no dia do seu aniversário, apagando-se lentamente como pavio de vela a quem falhou a cera na serenidade impressionante de nenúfar ao sabor das tímidas correntes de um qualquer rio algures em Trás-os-Montes. Finou-se ali no alto da colina mirante perpétuo da sua vida, lançando um último olhar sobre o rio dos seus sonhos como quem se despede dos segredos, sorrisos e carícias de adorável amante ou como se fosse andorinha que rasga um horizonte infinito a caminho de outras diferentes e novas primaveras.
          Tudo o que de luzidio tornou a sua vida jaz em campa esquecida como espólio de batalha em que só este guerreiro sobreviveu para vir cair hoje aqui morto, desamparado como se também fosse ele uma das ínclitas e infelizes personagens das tantas histórias que nos contou.
   Acabou!
   Baila ainda neste ar cinzento de Outono esse fantasma de homem que se recusa a partir nessa estonteante viagem sem antes, num descaramento macabro, narrar a sua própria morte.
 Erro colossal! O que o faz ficar, mais que essa recusa que sabe impossível, é ter percebido a tempo, no último sopro de vida, que afinal a vida é toda ela uma ilusão e que muito mais que a soma de pequenos gostos e grandes desgostos é uma mentira, tudo uma mentira.
    Olha-os um a um, aos seres vivos que imitam na perfeição a mágoa da sua perda, como quem finalmente percebeu a comédia colectiva do mundo, a inutilidade em que se transformam as relações de amor e os mais enérgicos afectos.
     Deixou de compor, deixou de sonhar mas aquele, já perpetuo sorriso na cara gelada, indicia o gozo de quem finalmente encontrou a verdade.
    Que descanse em paz entre os esplendores da luz perpétua, ámen…
           
Manuel Araujo da Cunha
Enviado por Manuel Araujo da Cunha em 16/10/2006
Código do texto: T265556
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Sobre o autor
Manuel Araujo da Cunha
Portugal, 69 anos
10 textos (739 leituras)
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Manuel Araujo da Cunha