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A BARCA DE FANTASIA

A barca de fantasia
    Quero ver o mar!
Foram estas as palavras da Matilde, numa manhã de um dia calmo e sereno de Outubro da sua também doce e terna meninice, quando a mãe lhe perguntava que prenda ela queria no dia dos seus anos.
    Prenda! Quantas foram essas secretas esperanças embrulhadas em papel de sonhos, alimentadas no peito carinhosamente, que todos os anos nasciam e acabavam por morrer sem qualquer possibilidade concretização!?
   Ninguém imaginava as razões objectivas que a levavam a tão obstinado pedido, mas sim outras tão comuns à maioria das crianças da sua terra espicaçadas por uma curiosidade herdada. Ver o mar, pousar a vista nessa imensidão de água salgada onde decorriam as extraordinárias aventuras de piratas e terríveis naufrágios plasmados primorosamente nos livros de Emílio Salgari, era o sonho de quase todos os pequenos e de muitos idosos que iriam viver e morrer sem nunca alcançarem a visão tão desejada.
    O mar não era distante de Rio Mau, escassos quilómetros separam o atlântico deste pedaço de chão onde ela tinha nascido mas, cercadA por montanhas quase intransponíveis e sem estradas, só poderia imaginá-lo na sua grandiosidade e deslumbramento. O rio corria para lá todos os dias todas as noites impaciente e nervoso, seguia os trilhos do passado sem uma notícia, sem um convite, sem lhe falar dele mesmo nas horas  em que voltava a Pédemoura empurrado pelas marés vivas.
     O rio, o seu primeiro amor verdadeiro, o espelho que reflectia a sua imagem pequenina, o berço onde nasceram as suas utopias e as inocentes e primeiras ilusões, tinha para ela, projectos de vida que sempre teimou em ignorar, mas nunca impediu, não quis impedir, que as águas salgadas fossem o seu chão por alguns anos. Soube que teve saudades dela, que se revoltou na sua ausência o tolo, perdido de ciúmes, a julgar que ela o tinha esquecido e sem saber que o levou no coração que o deixou correr nas veias livre e senhor de todo o seu destino, inundou a terra.
     -Tu queres ir ver ao mar Matilde? Não queres antes uma uma boneca, uns vidrinhos, um carrinho, umas canequinhas e outras coisas assim?
    - Não,minha mãe, o que eu queria muito era ver o mar, as ondas e ouvir aquele rumor que se ouve na concha que está acolá em cima da mesa da sala!
     Teve a sua prenda a sua visão celeste e logo no outro dia corria para ele desde o Infante, no nostálgico eléctrico da Cantareira que ao desfazer da curva dos Pilotos da Barra lhe mostrou as palmeiras da Meia - laranja com o mar ali todo à sua  espera. Sentou-se nas pedras do Cais Velho e procurou no infinito horizonte as causas de tamanha e aflitiva inquirição: um barco, ela queria ver um barco que rasgasse as ondas, que desfraldasse as velas, talvez um veleiro que de mares distantes viesse aqui refugiar-se neste estuário de onde partiu invencível armada, perseguido por piratas de pernas – de - pau e olhos tapados por anteparas de couro, de ganchos enfiados nas mãos, os mesmos ou outros iguais aos de que lhe falavam as historias aos quadradinhos do Mundo de Aventuras que o Afonso Leal lhe vendia usadas, em Penafiel.
  Matilde queria ver o ribombar dos canhões do Castelo do Queijo a despejar bolas de fogo sobre as armadas dos infiéis, dos saqueadores que evadiam a Pátria que já lhe tinham ensinado a amar. Ela queria os seus sonhos de criança intactos, reproduzidos ao pormenor da história fascinante que o  pai lhe contou sem perceber que lhe traía a mente que a lançava num mundo tão irreal e tão fantástico de cujo o estilo assombroso nunca mais foi capaz de sair. Uma enclausurada, é o que se sente hoje por nunca ter quebrado as amarras das conspirações em que a vida a meteu sem lhe ter dado ouvidos, sem lhe perguntar ao menos, se queria ou não ser feliz.
  Olha ainda hoje esse horizonte perdido nas neblinas da vida como um náufrago aflito em alto mar. Olha o que era e o que é agora depois de ter perdido o seu veleiro, o pai que lhe contou a história e a mãe que a levou até ao mar só para lhe mostrar uma ilusão. Olha o que sobrou desse presépio desfeito reconhecendo ainda em si própria, a criança desejosa a quem só sobrou o horizonte.
   - Não vejo barcos mãe, e eu queria ver um barco!
   -Olha acolá no outro lado, na Afurada, não vês um barco…que lindo barco!...
    Não minha mãe, aquilo não é um barco, aquilo, é uma barca de fantasia…
     



Manuel Araujo da Cunha
Enviado por Manuel Araujo da Cunha em 18/10/2006
Código do texto: T267464
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Sobre o autor
Manuel Araujo da Cunha
Portugal, 69 anos
10 textos (740 leituras)
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Manuel Araujo da Cunha