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para uma amiga muito querida...

A MULHER TORTA

               Ela nasceu torta. Torta, isso. Algo como aquelas histórias de fadas em que a fada ruim,não convidada pra festa lança uma praga e diz : “Vai ser torta, toda tortinha e ninguém vai poder consertar”. A praga pegou. Cresceu torta, esquisita. Sempre de fala pouca e sempre com alguém pra dizer “Ô menininha estranha...”, o que só servia para fazê-la ainda mais muda. O que não falava, pensava. E olhava, olhava muito. Via o que ninguém via e via o que ninguém pensava que estava sendo visto. E via por detrás também. Aquilo que não estava estampado, que não deveria ser mostrado. Ela via, mas calava. 

               Tanto quanto não falava, ouvia. E ouvia atentamente. Ouvia não as palavras, que isso qualquer pessoa retinha ouvia. Ouvia o que as bocas não diziam, mas que os olhos e as maneiras revelavam. Calava-se, que era melhor. Os olhos, entretanto, sempre muito fincados na alma alheia, incomodavam. “Ô menina estranha, esquisita...”. Já tinha virado uma espécie de rótulo colado em seu rosto, como a anunciar antes mesmo que dissessem pra não ter que ouvir outra vez.                

               Era torta, sim, mas inteligente e muito perspicaz. Descobriu que, falando pelos cotovelos além da boca, conseguiria parecer tão retinha quanto os demais. Desandou a falar, tornou-se a comediante por onde passava. Começou até a ser considerada meio normal... Ria-se por dentro. “Eles não imaginam o que vai na minha cabeça, eles não sabem que posso vê-los mais do que eles próprios. Melhor assim.” 

               Reta para a multidão, continuava torta por dentro. Cada vez mais. Via cada vez mais, ouvia cada vez mais, compreendia cada vez mais, falava cada vez mais, só que com o devido filtro, para não revelar seu lado torto. Só que a natureza de vez em quando se manifesta e ela soltava o que não devia. Lá se ia um amigo que não tinha estofo pra ouvir o que não queria; um amor que não estava pronto pra ouvir coisas incômodas ou um agregado qualquer que não gostava muito daquela língua que cortava feito faca. 

               Nasceu torta e torta continua. Sonha com o dia em que irá, torta do jeito que é, pra um lugar todo torto como ela, bem longe dessa descivilização que se crê tão elegante e retinha, uma praia qualquer onde as ondas possam ir em sentido contrário e suas lágrimas, um dia amargas, sejam doces e lavem seu coração que é todo certinho. Só que ninguém sabe disso.

Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 24/10/2006
Reeditado em 24/10/2006
Código do texto: T272191

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
722 textos (154019 leituras)
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Débora Denadai