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A Vida

Acordei de um modo estranho. Ao invés de abrir os dois olhos e depois descobrir que estava acordado, como sempre, eu despertei antes mesmo que meu corpo soubesse. Nada fazia sentido, se é que ainda existia essa palavra. Sabia que era um dia nublado e chuvoso, mesmo sem abrir a janela e nem sequer abrir os olhos. As cortinas estavam serradas e ao meu lado não tinha ninguém. Minha mulher deveria ter levantado antes de mim. O que mais me intrigava era que o tempo não tinha mais controle sobre mim. Era como se eu estivesse.... morto. Mas sabia que não estava. Ainda. Um dia todos vamos morrer e inevitavelmente seremos esquecidos. Tinha medo de sucumbir às pressões do tempo. O tempo passa como se nada quisesse com ninguém e no final não sobra nada para ser lembrado. Nada além de pó. O tempo em si estava ruim. Nublado. Odeio dias nublados. Antes não odiava. Quando era criança eu adorava aquela preparação para sair na chuva. Punha botas, um casaquinho e uma capa de chuva, um guarda chuva às vezes de um super herói. Fascinava-me toda aquela água caindo de um lugar que eu não podia ver. Cheguei a achar que o cinza e o preto eram as fontes de água. Depois descobri que eram as torneiras. Quando cresci e passei a ter que levar meu filho para a escola eu passei a odiar a chuva. Muitos transtornos. Quando somos jovens quase tudo é mais bonito até porque temos tempo para apreciar. Nem sei há quanto tempo não vejo um pôr do sol. Antes costumava ver mais. Antes eu era um jovem despreocupado. Acho que adultos são o problema. Se você pensar bem as crianças têm a força de se expressar, de alterar e os jovens tem aquela ânsia de conhecimento e em meio as suas descobertas e contemplações tem a chance de mudar. Mas nós pais sempre conseguimos cumprir nossa tarefa. Nós pais temos a tendência e a força de criar novos pais. E talvez por isso nunca vamos parar para contemplar o pôr do sol. Estaremos muito ocupados com as nossas metas. Não sei mais o que fazer. Estou aqui em cima e mesmo vendo o meu corpo, um tanto mais barrigudo do que eu achava que era, e mal acabado também. Não pensava que estivesse assim... Eu, olhando para mim mesmo e me depreciando. Mas é o que fazemos conosco todos os dias. Acordamos, nos enchemos de porcarias, fumamos, bebemos, estamos em busca da nossa depreciação. Será que o pais de antigamente também faziam isso? Já que pais criam pais. O mundo mudou. O mundo muda toda hora, a cada segundo o mundo está mudando. Mas eu não sinto isso. Estou preso aqui em cima. Nada posso mais fazer.....
_ Anda Augusto, você está atrasado, tem que levar seu filho para a escola.
_ Já vou. Já estou indo. Calma.
Se era um sonho eu não sei, mas de qualquer forma me fez perder muito tempo, o dia está chuvoso, tenho que levar meu filho para a escolha. Odeio chuva.
leandroDiniz
Enviado por leandroDiniz em 02/07/2005
Código do texto: T30458
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Sobre o autor
leandroDiniz
Niterói - Rio de Janeiro - Brasil, 34 anos
260 textos (273077 leituras)
3 e-livros (430 leituras)
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leandroDiniz