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Além do entendimento

 Me senti como um pequeno objeto em meio a uma torrente inigualável de água, que leva tudo e nada sobrevive, uma vingança da natureza. Como poderia saber que tudo está armado de um modo que não podemos saber até que tudo realmente aconteça? Era meu primeiro dia no novo emprego, um emprego pelo qual lutei durante quase três anos. Estudo, preparação, meditação e enfim a prova. Não sei se estava preparado para aquilo de uma forma tão completa que simplesmente fui o melhor em todos os quesitos do teste. Fui aprovado. Logo em meu primeiro dia de trabalho eu não consigo chegar a tempo. Aliás o tempo está contra mim. É inimaginável saber que os quatro pneus do meu carro iriam furar em plena auto-estrada. E explique o porque do maior engarrafamento da história justamente no meu primeiro dia. Eu não consigo.
Tudo minuciosamente planejado e tudo em vão. Parado no meio do nada com todos esses carros buzinando e talvez tendo o mesmo pensamento que eu. Porque eu? Que força é essa que nos arrasta umas horas pra esquerda e outras pra direita sem que sejamos fortes a ponto de decidir os nossos próprios desígnios.
Só sei que se realmente existe sorte eu não havia entrado num acordo com ela. Pela primeira vez realmente rezei ao meu modo para que tudo desse certo. Que nada pudesse afetar essa nova etapa da minha vida.
Foi então que de repente ao longe comecei a ouvir barulhos e uma gritaria. Tentei olhar, como os outros que estavam parados comigo no trânsito, mas nada pude ver. Só sabia que a coisa, fosse lá o que fosse, estava chegando perto e mais perto a cada momento. Ladrões! Eram assaltantes fugindo da polícia.
Vinham correndo pelo engarrafamento com suas pistolas na mão. Os policiais por sua vez também estavam armados. Minhas pernas tremeram, não havia para onde ir, minha mente tampouco sabia para onde ir, só sabia ficar parado. São momentos como esses que ficamos totalmente a mercê do destino. Quando os bandidos estavam há uns cem metros de onde eu ficara imóvel começaram a disparar contra a polícia, que por sua vez não economizaram o gatilho também.
Fiquei com medo. Medo de nunca mais dizer à minha esposa que a amo. Com um medo incomensurável de não poder pedir desculpas ao meu irmão pela briga idiota que tivemos e que ela nada significou e ainda o amo. O medo se apoderou de mim ao saber que poderia nunca mais comer o meu prato preferido, ver meu programa de TV preferido ou até saber que se algum tiro me acertasse estaria fadado a não poder preferir nada mais.
Pela minha idiotice de ficar em pé, mas confesso eu não tinha conseguido ir a nenhum algum, os assaltantes pararam e me tomaram como refém. Realmente foi o momento mais enervante da minha vida. Eu apaguei mas fiquei consciente. Não sei se pelo estresse ou um nervosismo fora do normal eu me desliguei, não me lembro de nada. Tudo que sei a partir de agora foi contado pelos policiais.
Foi contado que comecei a chorar, chorar muito fortemente. E isso foi deixando os ladrões muito mais nervosos do que já estavam. Eu tremia muito e mesmo assim continuava em pé. Foi então que comecei a rezar em voz alta. Uma reza nunca antes vista. E com a minha reza, de uma intensidade nunca antes vista, os ladrões começaram a chorar também, assim como os policiais e praticamente todos que estavam à volta. Todos se sentiram ínfimos, foram confirmando depois. Um policial disse “...naquele momento em que ouvi o rapaz dizendo aquelas palavras que nada significavam e mesmo assim faziam um sentido enorme dentro de mim.” Enfim , de um modo ou outro, todos se acalmaram e a situação foi resolvida. Os policiais depois de um tempo se controlaram e os bandidos se entregaram. Depois foram me perguntar por que eu estava parado lá na auto estrada já que não havia nenhum problema com meu carro. Fiquei assustado, e realmente todos os pneus do meu  carro estavam perfeitos, até mais novos do que antes. Fiquei intrigado com aquilo.
Chegando ao emprego soube que todos haviam se atrasado por causa do engarrafamento e que isso foi relevado para todos os funcionários. Meu emprego estava perfeitamente garantido. O que mais me intrigou nisso tudo foi posterior, a revelação que me foi feita. Eu nunca na vida fora religioso. Fui poucas vezes acompanhando minha avó enquanto ela estava viva, depois que ela faleceu nunca mais pisei em uma. Mesmo assim, devido um cinegrafista amador, eu me vi proferindo aquelas palavras que são impossíveis de serem repetidas agora. Estudiosos e investigadores da Igreja tem me procurado freqüentemente. E em uma conversa com um deles me foi revelado o que eu disse. Mario Simmel Fontinne é um estudioso do aramaico, língua falada por Yehoshua, nosso Jesus. Ele me revelou que eu proferi a mesma frase três vezes, e ele não explicou o porque mas associou o fato a Trindade Espiritual católica. Tudo aconteceu como se todos estivessem escutando uma voz sagrada tão forte que seria impossível não crer e impossível não se curvar e chorar por ela. Mario falou que a frase que eu disse com tanta veemência foi à mesma frase que Jesus disse antes de morrer: "Pai, perdoa-lhes; porque não sabem o que fazem". Confesso que a princípio tudo me abalou de uma forma muito forte. Depois daquele dia eu não seria o mesmo. Tudo fora abafado pela Igreja e foi dito que o que eu falei não tinha sentido, assim seria melhor para o povo ignorante. Já os ladrões, me mandaram cartas agradecendo a oportunidade e que nunca mais seriam tal como estavam sendo. Os policiais se demitiram no dia seguinte, disseram que enquanto existir polícia reprimindo crimes os crimes não vão parar de acontecer, que os crimes parariam quando as pessoas descobrissem que o amor que tem é forte o bastante para parar qualquer maldade.
leandroDiniz
Enviado por leandroDiniz em 02/07/2005
Código do texto: T30460
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Sobre o autor
leandroDiniz
Niterói - Rio de Janeiro - Brasil, 34 anos
260 textos (273084 leituras)
3 e-livros (430 leituras)
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leandroDiniz