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     Era ainda uma garota quando se conheceram. Ela acabara de entrar para a faculdade. Ele, já fazia a própria vida, vários anos mais velho. Saíam juntos e passavam longas horas conversando. Nenhum toque, apenas a conversa gostosa que rolava com naturalidade. Ele era já um homem. Cabelos fartos, ondulados, muito escuros. Pêlos no peito. Ela sempre gostara disso. Jamais se interessaria por um nadador. Aqueles peitos nus e lisos não a agradavam. Lembravam meninos. Falavam sobre tudo. Ele ia de um assunto a outro com a maior naturalidade. E era um grande companheiro. Barzinhos, boate, bate-papo em alguma pracinha pra ver o sol nascer. E uma grande admiração por ele. 
     Nunca tinha tido um homem. Muitas vezes pensava como seria. Até então, conhecia sua própria sexualidade por suas próprias mãos. O máximo de intimidade a que se permitira com qualquer homem não passava de toques suaves em seus seios. Sabia a intensidade com que sentia as coisas e não queria apressar as coisas. Tinha seus planos para a vida. Não queria aprofundar nada para não mudar seus planos. Mas aquela simpatia e admiração não deixavam de despertar nela uma atração por ele. E fisicamente, ele tinha tudo que ela gostava: os cabelos ondulados, cheios, alguns fios brancos, o peito forte e cobertos por aqueles pêlos que ela adorava olhar pelo vão da camisa. Uma boca cheia, bem feita e um nariz nada delicado. Nunca gostara muito de homens com desenhos perfeitos. A perfeição e a simetria eram algo que a incomodavam. E uma ótima conversa. Não seria tão mal que ele fosse seu primeiro homem. 
     Os primeiros carinhos vieram. O primeiro beijo, pensava ela, não era exatamente o que ela imaginara. Não gostava de beijos no estilo desentupidor de pia e tivera a impressão que ele tinha ido com muita fome por sua boca. Colocou na conta de um desejo que vinha crescendo e sendo contido. Algo que, com o tempo, certamente iriam acabar acertando. Os primeiros toques em seu corpo foram um pouco diferentes do beijo. Mais suaves, carinhosos. Ainda assim, não era a hora. 
     Um dia decidiu que iriam fazer amor. Naquele dia iria entregar-se àquele homem. No telefone, deixou vazar nas palavras a intenção. Naquele dia completariam seis meses saindo juntos. Um pouco antes da hora marcada, um vaso de flores e o cartão: “Mal posso esperar pela hora em que você será minha. E mais ainda, o dia em que você será definitivamente minha. Meu presente de aniversário: casa comigo? “ 
     Algo estalou dentro dela. Leu novamente o bilhete, lembrou como ele gostava de desfilar com ela pelos lugares que seus amigos freqüentavam. A forma como punha os braços sobre as costas dela sempre que algum homem a olhava. A forma como a apertava com tanta força quando trocavam carinhos. Ligou dizendo não se sentir bem. 
     No dia seguinte era o aniversário dele. Logo de manhã, o entregador bate à porta com um pacote de presente, embrulhado com uma enorme fita vermelha. Dentro, uma foto dela num porta retrato. E o bilhete: “Aí está. Toda sua. Divirta-se. Estarei ocupada nos próximos 50 anos. Não me ligue.”

Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 28/07/2005
Código do texto: T38398

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
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Débora Denadai