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     Distraída que estava, nem ouviu a porta da sala se abrindo e depois o barulho da chave, fechando-a novamente. Deixara-se cair na poltrona de seu (?) quarto como uma fruta madura que desabasse do pé. Não tinha a menor idéia de quanto tempo estava ali, naquele estado meio cataléptico, como um transe. Impossível, para quem quer que a olhasse, saber o que ia em seus pensamentos. O rosto, lívido e totalmente inexpressivo. Quase como se tivesse morrido e esquecido de fechar os olhos. Estes, parados e fixos no teto. Único sinal de vida: uma e outra lágrima eventualmente escorria pela face. 
     Depois de percorrer o corredor que levava até o quarto, ele parou por instantes a observá-la, como à cata de alguma explicação. Por algum tempo, fitou aquela mulher, quase sem poder reconhecer nela a beleza tão viva e o carisma que sempre lhe prenderam a atenção. Lembrou-se de como gostava de ficar admirando-a por um longo tempo enquanto ela se maquiava. Era bonita naturalmente, mas sempre gostara de um pouco de maquiagem. Principalmente nos olhos. Sempre aquele traço negro delineando e tornando seus olhos ainda mais profundos e misteriosos. Ele gostava de vê-la fazendo a maquiagem. Gostava de vê-la assim, vaidosa. Mas não conseguia lidar bem com o impacto que, quase sempre, ela causava nos lugares por onde passava.  Incomodava-o que chamasse tanto a atenção. E mais que isso, que prendesse tanto a atenção. 
     De volta das lembranças, encontra o olhar morto, perdido num ponto onde ele não tem permissão para entrar. O que estará pensando? Pior, em quem? Era um temor constante para ele. Não importava o quanto ela se desdobrasse em carinhos e atenções, ele sempre tivera medo de um dia perdê-la para outro. E aqueles silêncios de tempos em tempos? O que era aquilo? Por onde ela andava quando se trancava em seu silêncio? Aquela mania de ficar escrevendo coisas que ele não entendia? Para quem ela escrevia? Sua cabeça rodopiava com esses pensamentos... 
     Não entendia aquele silêncio de agora, que já durava dias. Sempre jogada como um pano sobre a cadeira, olhando o teto ou o nada. E lágrimas. Por que aquelas lágrimas? Não podia ser por causa da última discussão que tiveram. Discutiam sempre, é verdade. Mas todo casal tinha suas discordâncias. Decidiu romper o silêncio:
- O que houve? Se você não diz nada, não posso entender. Alguma coisa, qualquer coisa, por favor...Eu tenho feito de tudo que posso: deixo você ficar se matando naquele trabalho que não serve pra nada, tão mal pago. Deixo você ficar aí escrevendo estas coisas sem nexo, deixo você ficar conversando com estas pessoas que você nem conhece nestes chats, não sei mais o que fazer... 
     Nada. O silêncio fica ainda mais pesado. Apenas os olhos, meio mortos, úmidos ainda, voltam-se na direção dos olhos dele. Dos lábios, nenhuma resposta. 
     Subitamente ela se mexe na cadeira como se algo lhe incomodasse as costas. Passa as mãos atrás de si como se acomodasse algo por debaixo da blusa. Lembra-se das asas de borboleta. Mexe-se como quem faz um pequeno treino de vôo, para lembrar-se como era. Lentamente, levanta-se e passa sobre ele num vôo meio rasante. Pára na porta, antes de deixá-lo no quarto com suas interrogações. Olha aquele homem que um dia amou, com uma certa compaixão. Torna a mexer as asas e rompe o silêncio.
- É ...você deixa. Mas agora eu me permito. 
     De repente, o barulho das asas. E a porta da sala se fechando a sua passagem. No chão, ao lado da cadeira, o casulo em pedaços.



Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 29/07/2005
Código do texto: T38609

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
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Débora Denadai

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