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A VIDA COMO ELA É. Série Verdades

A VIDA COMO ELA É. Série Figuras do Rio...

Morei na rua João de Lacerda, em Bangu, no Rio de janeiro, em apartamento de Benevides Ramos, pai do Maneca, durante três anos. O Benevides era um português forte, com cerca de sessenta anos e chegamos a ser bons amigos.

Trabalhador, solícito e educado, Maneca era o braço direito do pai na gerência da Mercearia Ramos, esquina da João de Lacerda com Guapeú. Filho único, Maneca era um rapaz valoroso.

Ramos dava-lhe esporros, gritava o tempo todo e não deixava que ele vivesse a vida normal de um rapaz da sua idade. O Maneca era de temperamento doce e não respondia ao pai. Pelo menos, a vizinhança comentava os modos do pai e do filho, sempre com um voto de louvor para o seu comportamento.

O tempo foi passando... O Maneca conheceu uma moça, apaixonou-se e resolveu casar-se. Aí a coisa apertou. Ramos mandou-o para a rua. Não que Ramos fosse mau pai. Talvez o excesso de amor e a sua intransigência, tenham-no levado a agir dessa forma.

O Maneca saiu de casa e passou a ser vendedor de secos e molhados nos supermercados e armazéns da zona norte.
Esta situação perdurou por alguns meses, até que o Ramos que havia vendido a mercearia foi passear em Portugal com a esposa.

Nesse interim Maneca casou-se.

Quando Ramos voltou de Portugal, instalou-se com uma casa de materiais de construção na Av. Brasil e resolveu fazer as pazes com o filho, fato aplaudido por todos os amigos. E tudo corria às mil maravilhas até que um dia a casa foi assaltada. Um dos assaltantes rendeu Ramos no caixa e pegou todo o dinheiro da féria.

Maneca ficou observando paralizado, até que o marginal gritou: - Vamos lá em cima coroa, pois eu sei que tu tens muita jóia e dinheiro.

Na parte superior da casa de negócio, Benevides Ramos morava com a esposa, mãe do Maneca.
O assaltante, de arma em punho, foi levando o velho aos empurrões até a escada que dava para o andar residencial.

Assistindo a cena, Maneca perdeu o controle e partiu célere contra o assaltante, dominando-o. Ramos subiu as escadas correndo para chamar a policia. Enquanto isso, o assaltante levava desvantagem na luta corpo-a-corpo com o Maneca. Do lado de fora da casa, entretanto, a três metros de distância, um outro comparsa apontou a arma para o Maneca e apertou o gatilho, fulminando-o pelas costas.

- Ele já caiu morto, diria Ramos aos policiais que chegaram cinco minutos depois...

Havia apenas um mês que ele aceitara o filho de volta. Um mês apenas.

Maneca Ramos foi um bom filho que morreu aos 25 anos de idade, vitima da violência cruel do Rio de janeiro, na tentativa de defender seus pais.

Meses depois encontrei Ramos abatido, triste e vagaroso, alquebrado. Mal respondeu ao meu cumprimento...

A bala assassina não matou apenas o Maneca - pensei...
Ricardo De Benedictis
Enviado por Ricardo De Benedictis em 29/07/2005
Reeditado em 03/09/2008
Código do texto: T38738

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Sobre o autor
Ricardo De Benedictis
Vitória da Conquista - Bahia - Brasil, 77 anos
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Ricardo De Benedictis