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SEMPRE HAVERÁ A CHUVA

Não tinha certeza de há quanto tempo estava ali sentada. Na verdade, não tinha certeza de absolutamente nada. Nem mesmo de estar viva. Sentara-se ali e ficara um longo tempo ali na sacada do apartamento olhando para fora. Olhava sem ver. Os olhos estavam abertos, mas era um mero detalhe. Não via absolutamente nada. Diante de si tinha apenas um painel em branco, como um canal de tv fora do ar. Rabiscos e chuviscos e aqui ou ali uma imagem da lembrança que se projetava sem muita nitidez.
De repente veio a imagem daquele que acabara de bater a porta da rua. A imagem de como entrara de supetão na vida dela. Um tufão, ela gostava de dizer. Entrara sem cerimônia e sem pedir licença. Ela bem que tinha achado aquilo engraçado na época. Parecia-lhe simplesmente alguém que sabia o que queria e corria atrás. Entrou levando tudo feito um vendaval. Destruições à parte – que não se podia culpá-lo pelo que já estava em cacos – arrebatara também seu coração. A princípio, tinha achado divertido e, até por que não dizer, bonito, aquele jeito decidido de ir reivindicando o que queria. Ela incluída, claro. Não parecia arrogância, parecia determinação. Acompanhou o vento.
Momentaneamente, a tela volta a ficar em branco, fora do ar. Não há pensamentos, nem ouve nada. Uma espécie de transe. Quantas horas de aula de meditação tentando dar um branco nos pensamentos sem conseguir e agora, em branco, sem o menor esforço. Sensação de oco, de vazio. Uma lufada de vento tira-a dessas considerações. Ali está ele novamente, diante dela, saindo, o barulho da porta atrás de si e o estrondo de todos os desaforos caindo feito as duas torres de Nova York em cima dela. Já não consegue chorar também. Teria morrido?
Não. Olhou pra fora e desta vez viu. As crianças brincando lá embaixo, o vento levando as folhas...O vento de novo. Olhou a poeira de muitos anos que se assentava sobre ela. Olhou as crianças de novo. O vento. O vento leva a poeira. E traz. De repente, uns pingos e a chuva começa. Pingos grossos, e de repente, um aguaceiro. “O vento leva e traz a poeira”, pensou, “mas a chuva lava tudo.” Enxugou uma gota que rolava pelo rosto.
Levantou-se e correu para o meio do parque. Deixou que a chuva levasse o que o vento deixara acumular. Depois haverá sol para secar a alma. E chuva, sempre que for preciso.


Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 15/08/2005
Reeditado em 15/08/2005
Código do texto: T42803

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
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Débora Denadai