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MULHERES ALADAS
(Contando uma história de um amigo, do meu jeito)

Nunca consegui entender muito bem o porquê do meu sofrimento ao lado daquela mulher. Desejara-a desde sempre. Uma coisa completamente inexplicável. Uma espécie de agonia tomou conta de mim quando a vi. Bela: a palavra não traduz tudo. Era muito mais que bela. Tinha uma espécie de aura, de campo magnético do qual era impossível fugir. Desejei estar perto dela, sentir seu cheiro, ouvir de perto sua voz. Mas o pior : desejei tê-la. É quando um homem erra enormemente. Há um tipo de mulher que não se pode “ter”. Pode-se gozar de sua companhia, partilhar de suas opiniões e pensamentos, dividir prazeres. Mas “ter”, é algo que não existe. E ela é este tipo de mulher. Um pássaro, um ser cheio de asas por todos os lados. E é neste ponto que a maioria dos homens erra. Tendem a desejar a posse, a propriedade. Isso é até possível com algumas mulheres. Mas não ela.
Com algum esforço e uma dose de criatividade, ganhei espaço junto dela. Sou um sujeito bem humorado e espirituoso. E mulheres como ela gostam disso. Não se prendem às fachadas. O layout não é muito importante se o produto fizer o que promete. Não nego: foi uma sensação de ganhar um prêmio. Algo do tipo, ganhei a disputa. Principalmente porque a concorrência era sempre muito grande. Mas ela agora era “minha”. Segundo grande erro. Ela nunca será de ninguém. É o tipo de mulher que só pertence a si própria. Mas eu insistia na ilusão de que era minha. E insistia em erguer barreiras em torno dela.
No começo, enchendo-a de mimos e também, a agenda dela. Assim, não haveria tempo pra mais nada além de mim. Ledo engano. Pessoas aladas como ela acham tempo dentro de si. Voam por lugares aos quais não temos acesso, voam sobre nossos abismos como se percorressem planícies floridas. Voam por sonhos mais reais do que são as realidades que construímos para elas. Assim ela. Longos momentos voando e sonhando de olhos abertos. Olhos que, em um dado momento, não demonstravam a admiração de uma mulher para um homem, mas a de uma mãe que olha tristemente a inexperiência emocional do filho.
Mulheres aladas podem tolerar, em nome de um sentimento em que acreditam com fervor, todos os despropósitos que homens rastejantes cometem na tentativa de cortar-lhes as asas. Cortar-lhes as asas lhes parece mais simples do que tentar ganhar as suas próprias e dividir o céu junto com elas. Assim eu. De várias maneiras fui arrancando-lhe, uma a uma, todas as penas de suas asas. E a cada pena arrancada, estampava-se em seus olhos não apenas a dor do malfeito, mas também a tristeza de saber quem era o autor da maldade. E crescia a olhos vistos, o olhar de tolerância e tristeza para com o menino levado. Eu não era mais o seu homem. Apenas um menino perdido, precisando de alguém para iluminar o caminho.
Mulheres aladas têm uma enorme capacidade de ser compassivas. E era isso: compaixão. Talvez houvesse ainda um quê de esperança, como uma mãe que vê o filho errando mas fica ali, à espera da hora em que crescerá e passará a agir como um homem. Mas uma mulher alada também precisa voar pelos céus da paixão. E paixão por um homem. Eu era um menino levado.
Levado e incompetente. Talvez por isso jamais pudesse contar esta história com minhas próprias palavras. Deixei nas mãos de uma mulher, que voa nas asas da imaginação. Ela com certeza poderá explicar porque hoje a gaiola de ouro esvaziou-se. Não adianta cortar as asas. Elas voltam a crescer. E mais fortes.
Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 29/08/2005
Código do texto: T46016

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
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Débora Denadai