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A ultima noite de uma alma arrependida.

Meus passos ecoavam nas escadas, como pancadas de marreta, deles emanavam trovões e não ecos, ainda estava torpe com aquela infame noite, não era o suor que me purificava mas sim as lágrimas que caiam do meu rosto, e dilacerante solidão no meu peito, conseguira chegar em anos o mais perto dela , e agora que iria fazer?
As escadas acabaram-se, minha mão já palmilhava a porta do segundo andar, só mais alguns passos e atingiria a campainha, era eu mais humano e fragilizado que nunca, buscando perdão redenção misericórdia, amor...
Como a lembrança dela nesses intermináveis anos eram um misto de cura e doença, sua falta me envenenava a alegria e sua lembrança, essa me fazia respirar e esperar, sim a esperança nunca me abandonara, sentia toda manhã ao olhar para o lado e não vê-la, dor e saudades, via em sorrisos, seus lábios tão inocentes, seu olhar tão apaixonante, cativante, era intrusivo nos meus porres agora solitários, a vida era impossível, mesmo distante, sem ela.Minha mão agora fraquejava, minhas pernas esmoeciam-se aos poucos, o ar me faltava só de pensar que chegara tão perto do amor da minha vida novamente, a boca secava , talvez ansiando por mais um beijo do paraíso, aquele gesto tão nobre de tão nobre mulher, minhas pálpebras pesavam impelindo-me a cerra-las, ao mesmo tempo em que meu cérebro pregava uma peça em meus sentidos.
Sim era ela vinha a meu encontro, sua pele alva, seu cabelo fios de noite, seus dentes tão brancos naquele sorriso maroto e dissimulado, seus pés mal tocavam o chão, flutuavam em meus devaneios, suas pequenas mãos buscavam minha face, e a esta altura seu perfume já me embriagava minha cabeça rodava, e meu coração espancava meu peito, as veias turgavam-se, parecia que de tão quente meu sangue evaporava, as artéria pulsavam freneticamente, seu lábios vinham de encontro aos meus, era emoção demais para uma só alma, sim em instantes transcenderia,a algo superior, sentiria o perdão, a vida e o amor nessa carcaça seca, novamente, mas tudo foi interrompido ao abrir os olhos e ver a fria solidão tocar meus lábios, cai de joelhos, tal alucinação tirava o pouco de força vital que ainda me restava, estava tão perto...
Se for só o que me restava um ultimo fôlego não iria desperdiça-lo como havia feito com minha vida, num impulso, sobre-humano diria até, levantei-me, inflei os pulmões, empurrei com veemência a porta corta fogo que separava a escada do corredor, sim era a porta de seu apartamento, em trôpegos passos travava uma batalha infindável até atingir sua porta, a luz bruxelava por debaixo da porta.
Era ela, escutava o mais doce som que esse pútridos ouvidos já tiveram a honra de ouvir, era sua melodiosa voz, apenas uma placa de madeira entre mim e minha redenção, sentia seu perfume cítrico, e cheiro de sua pele acre de suor, com seu corpo enroscado ao meu depois de uma deleitada noite amorosa, as lembranças nunca me deixaram e por vezes me seqüestraram da realidade, mas agora estava perto de dar novamente um significado a minha vida.
Então era a hora, ergui meu indicador, e com sofreguidão, conduzi-o até a campainha, mas que iria dizer depois de apertá-la? Eu um belo desgraçado que uma vez teve a maior de todas as dádivas, o amor, e que jogara fora por luxúria, agora tão próximo depois de tanto arrependimento, que direito teria eu de clama-la novamente, não importava se agora minha vida chegava ao fim, mas deveria constrangê-la novamente ao impor-lhe minha repugnante presença? Novamente as duvidas e o medo congelavam meu corpo, por mais que a amasse, por mais que dedicasse minha vida a ela, nunca teria chegado e sua altura, e inda assim ela me dera uma chance, tão preciosa e única, e essa chance eu desperdicei, então voltei a ser  que sempre fui, um covarde cretino, baixei a mão disse um te amo a sua porta, e morri com minha única certeza, não importa o que ela faça, nem o que eu faça, nem que o mundo faça, eu sempre vou ama-la, carregá-la em meu âmago, respira-la, almeja-la, e eternamente cair em sofrimento e arrependimento por magoa-la.
Gustavo Fernandes
Enviado por Gustavo Fernandes em 02/11/2005
Reeditado em 19/12/2005
Código do texto: T66377
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Sobre o autor
Gustavo Fernandes
Olinda - Pernambuco - Brasil, 34 anos
55 textos (2018 leituras)
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Gustavo Fernandes