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SEU MUNDO PODE SER CRIADO

Seu mundo pode ser criado, seguido ou imposto. A estes formatos de caminhar, estarão diretamente ligadas a formação intelectual, condição econômica e instrução religiosa. Assim, ele pensava a cerca das coisas. Assim, ele dava seguimento a sua vida.
“A poesia mora em mim, e eu moro na poesia” era o bordão, o slogan que enunciava, em todas as oportunidades possíveis e impossíveis. Não chegava a incomodar com isto, não era necessariamente um chato. Não tinha método por incrível que pareça, não era, portanto mecânico, plástico, volúvel e efêmero talvez. Afinal era todo idéia, a idéia dominava a forma.
Ninguém é perfeito, tinha lá seus vícios. Nada que pudesse causar mal a não ser a ele próprio e talvez também a seu casamento. A dignidade que perseguia estava sempre a alguns centímetros de seus dedos, era uma meta. Sabia bem, entendia perfeitamente a coisa dual do amor, que comparava a uma flor, ”que encanta pelo belo que deixa ver”, e da “amarga dor que causa o espinho que nesta mesma flor habita”. A verdade é que viviam brigando, o casal, não suportava o tamanho de cada um. Talvez ela, não suportasse o fato da poesia morar nele, e dele morar na poesia.
Naquela manhã, a sensação era ruim, havia dormido mal, tivera pesadelos de morte, coisa ruim. Ela já estava de saco cheio, desde anteontem. Foi inevitável a briga.
“Espero, que tu morras, que não voltes mais a minha vida. Poeta de merda”, foi à última frase que ouviu dela.  Felizmente tinha memória, pensava caminhando, ao menos assim podia lembrar-se, de melhores frases e desejos de sua amada flor. Sua cabeça, não funcionava bem. Não era para menos pensava, uma puta noite mal dormida, e uma gritaria infernal pela manhã, não é o que nenhuma mente precisa.
Como a promiscuidade da mente leva a promiscuidade do corpo, resolveu passar no morro, pegar umas paradas antes de ir reunir-se aos amigos. Entrou na fila, fez o pedido, e antes de ser atendido foi surpreendido pela correria, gritaria e tiros. Sua mente pensou rápida, era uma invasão. “E agora o que fazer?” ”, pergunta-se. “ Muita calma nesta hora” é uma gíria e até um argumento que não cabia naquele momento. Olhou a volta, escalou um portão aberto, e pensou “é ali”. Mas antes de agir, foi baleado, pânico, dor, sangue, “muito sangue” disse em voz quase sussurrada. Ainda deu tempo de pensar os versos de sua última poesia, deixada sob a cômoda do quarto de dormir, antes de sair de casa “minha poesia não tem luz, não tem deus. Sustenta-se por si própria. E nasce quando eu quero”.
Estava ali, atendido o pedido dela, o poeta não voltaria mais a casa. E a poesia que era ele, morria nele. Nascia por sua vontade e morria agora contra. Não era mais igual, nem diferente. Nem triste, nem contente. Era morta.
Sylvio Neto
Enviado por Sylvio Neto em 08/11/2005
Código do texto: T68760
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Sobre o autor
Sylvio Neto
Belford Roxo - Rio de Janeiro - Brasil, 53 anos
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Sylvio Neto