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Sobre a morte

     -Da vasta gama das ilusões, certamente a morte é a maior delas...

     A frase soou como um lamento do velho mestre Toranaga para Abner Loreto. Depois de tanto tempo no mosteiro, se surpreendeu como ainda tinha tantas coisas a aprender.

     -Mas mestre, como pode a morte, única certeza que temos nesta existência, ser uma mera ilusão, se é tão certa quanto inevitável?

     O mestre olhou bondosamente para o já não tão jovem, sorveu com placidez mais um gole do chá verde que levantava espirais de fumaça a brincar no vento, como se não fosse tão amargo.

     -A vida, assim como tudo o que percebemos ao nosso redor, este jardim, aquela árvore, o pequeno lago, tudo isso não existe além de nossas mentes. São percepções de nosso cérebro que convencionamos chamar de realidade. Vivemos num mundo onde nós decidimos o que é verdade, a partir de uma espécie de "cardápio das verdades disponíveis". Os caminhos já estão todos traçados desde o princípio mas cabe a nós escolher por qual deles trilhar...

     -Então é correto afirmar que o karma exista, assim como a morte, fim dos caminhos - interrompeu Abner.

     Percebendo o esforço feito para o compreender, Toranaga resolve prosseguir antes do próximo gole.
     -E o que haveria após o fim então? De que valeriam todos os nossos esforços, nossos sacrifícios, nossos amores e dissabores?

     Agora sim tinha conseguido finalmente fazer seu pupilo meditar no caminho certo sobre o que ele precisava lhe contar, sobre sua necessidade de partir do mosteiro.
     
     -A morte seria então o final e o início ao mesmo tempo... - falou Abner meio distraído olhando a fumaça do chá que agora parecia acariciar o ar ao seu redor.
     -Sim gaijin - concordou Toranaga - percebe agora o quanto tudo é ilusório, inclusive a tão temida morte?
     -Mestre Toranaga-Sama, sim agora consigo ver com clareza e já me sinto livre de um antigo medo que sempre carreguei a respeito da morte!

     -Agora que entendeu esta última lição você finalmente está pronto para ir, e deve fazê-lo agora. - disse Toranaga de forma severa.

     -Partir? Mas pensei que fosse me tornar um mestre como o senhor após aprender tudo, que fosse passar a alguém tudo o que aprendi nestes longos anos - indignou-se Abner - para onde devo partir se meu lar é aqui?

     Toranaga sorriu, seu rosto estava iluminado de forma diferente, e sua idade parecia não ser tão avançada naquele momento:

     -Meu amado discípulo, você vai finalmente reencarnar.

Lyma
Enviado por Lyma em 12/11/2005
Reeditado em 30/05/2011
Código do texto: T70542

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Sobre o autor
Lyma
Salvador - Bahia - Brasil, 39 anos
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Lyma