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DENTRO DE UM ÚTERO ESCURO

                               ...mas representa, através das palavras, apenas
                                       alguns afetos sentidos no reino do infinito.
                                                                     E. T. A. HOFFMANN



Gostava tanto das situações inescapáveis... como quando menina: o pai a agarrava, a levava para a fonte, mas não a jogava na água. E o que ela, tão frágil e incapaz, poderia fazer a não ser gritar? E na verdade mesmo isso se abstinha de fazer, posto que lhe tirasse a atenção voltada ao inigualável sentimento de desamparo -- apreciava demais se largar à vontade e à força daquele titã, daquele ser ctônio que a havia criado da própria costela e a quem sem dúvida pertencia...
O prazer da farra era imenso; mas já então, menina, ela podia sentir que havia algo de errado naquele infinito infantil; que àquela experiência desregrada, insensata, proibida, estava destinada a atrofia, o não desabrochar, o não dar fruto, o aborto das experiências imperfeitas, destino de toda intenção que não se transforma com a chegada da idade adulta, que permanece semente infante, aventura de terra-do-nunca...
Já sentia isso, então, ou assim lhe fazia crer presentemente o maquinário da memória; haja vista seu irmão, que era a criança de imaginação mais fértil e febril, qualidades que o amadureceram um sonhador ilimitado, um aspirante a ficcionista com um pé na loucura e outro numa total incapacidade para a vida social... um anacoreta e um vampiro...
Numa crise de asma, sussurrara à irmã:

tô me sentindo oco como um ovo que a qualquer momento vai se quebrar

Ler e ler e ler mais para ficar cada vez mais louco, cada vez mais centrado no mundo dele, sua mãe sabe o que é ter um vagabundo em casa

Mas só ela, não o senhor, sabe o que é ter uma vagabunda em casa

Um pé feminino -- uma perna belíssima -- se estica (mãos envoltas em luvas brancas a desenrolar uma meia-calça finamente bordada).
Mãos; prendem uma liga ao corpete gótico branquíssimo.

Pertenceu à minha avó

Acende um cigarro...

Um vulto, que antes era apenas a silhueta de mais um móvel contra a luz da rua, levanta-se e vai de encontro à mulher -- esbofeteia-a; puxa-a pelos cabelos; lambe-lhe... não; morde-lhe, já que ela geme de dor, os lábios abertos pela violência
coloca-a sentada numa cadeira de alumínio, com brutalidade. Mãos para trás do encosto, algemas, liga um abajur; a luz lhe deixa entrever as pernas vestidas em jeans; dela, distante, bela, um corpo envelhecido e malhado -- músculos firmes, pele flácida --, pontas de uma cabeleira loira basta, acima dos seios a luz pálida que não revela os traços de um pescoço com excesso de pele -- longo -- soerguido.
À mercê. Apenas essa sensação, confirmada a frio pelo encadeamento das algemas, lhe rende um orgasmo a fluir caudaloso  enquanto o homem se aproxima e esfrega o pênis em seu corpo, apreciando demoradamente o volume e a flacidez da pele do braço, na região do tríceps; a pelanca sob o pescoço, onde tem sua primeira ejaculação; o interior das coxas...

Ao marido ela disse que o bandido lhe acertara um soco e lhe levara 200 reais em dinheiro.

Duas semanas depois, desejou dois homens -- Dorian e um amigo mixê. Sentir-se tomada pelos dois; o medo do rapaz desconhecido... deram-lhe duas vezes mais prazer... e uma tarde de amor que lhe custou o penhor de uma jóia e a necessidade de esconder do marido a nádega direita, porque roxa e inchada à força de tapas musculosos.
Não demorou a querer três homens. A Dorian informou que desejava um negro bem dotado e que ansiava ser brutalizada até o limite da exaustão. Ele concordou, mas no seu tom de voz ela soube ciúmes, por conta do que planejou, após a orgia, amor exclusivo; na hora, porém, lhe faltaram as forças; chegou até a perder a calma com Dorian Dionísio -- assim o sonhava -- porque, à visão dos hematomas e das manchas de sangue no lençol, já a asfixiava o miasma do remorso devido ao excesso cometido em tríptico.
Na tarde final, aconteceu apenas Dorian, a sacanagem de sempre. Entraram de mãos dadas no motel e beijaram na boca. Ele a prendeu à cabeceira da cama pelos punhos; a possuiu a seco, sem a pomada lubrificante; com agressividade incomum; mais rápido e mais forte... 100 quilos de suor e músculos...
Quando não restava mais dúvidas a respeito do que acontecia, a ela pareceu um prazer inegável -- absoluto, maior, último -- entregar-se ao assassínio de força imensa, o corpanzil sobre você, em você, você descobre a gravidade e um orgasmo que se prolonga e a penumbra que se adensa entre clarões de um cérebro mal oxigenado, porque as mãos de torno em volta do pescoço: são um esmagamento e não há realmente dor, as pernas se abrem em entrega sem fim, o orgasmo não termina e já não é mais orgasmo, é estática e reticência, um movimento na escuridão que é um útero, um jorro quente dentro de um útero escuro
Vital Romero
Enviado por Vital Romero em 30/10/2007
Reeditado em 01/11/2007
Código do texto: T715915

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Sobre o autor
Vital Romero
Santos - São Paulo - Brasil, 37 anos
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