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O AVESSO DE UM MILAGRE

O AVESSO DE UM MILAGRE

De quando em quando um clarão rasgava a escuridão anunciando uma noite tenebrosa. Do céu principiava um dilúvio. Os trovões rebimbavam em estrondos medonhos no alto da serra.
Don’Ana já cobrira os espelhos e de terço em punho junto à Santa Bárbara esperava pela tempestade.
- Deus seja louvado!
Serpentes de fogo riscavam o negrume da meia-noite. O vento em golfadas dilacerantes retorcia os galhos dos arbustos ao lado do barracão arrancando folhas e brotos que em rodopios alucinantes sumiam no ar negro que parecia engolir aquele pedaço do mundo. Um raio despencou ensurdecedor rasgando de alto a baixo uma centenária paineira que num rodopio fumegante estatelou-se dentro do riacho. A madeira estalou forte, não resistiu, foi arrastada pela enxurrada. A velha árvore se despedaçava em gemidos que se confundiam às ladainhas de Don’Ana que dentro do barracão, ajoelhada de fronte a imagem de Santa Bárbara, com o rosário entre os dedos rezava nessa noite especialmente aflita.
- Santa Bárbara bendita se despiu se descalçou, seu caminhinho andou...
Novo trovão. Outro raio explodiu poderoso nas vizinhanças. As luzes se apagaram. Sentiu-se no ar o cheiro de queimado, carne, couro, pêlo, ossos...
- Valei-me, Santa Bárbara! – gritava Don’Ana enquanto se benzia em todas as direções, agitando o relicário em desespero.
Uma rajada de vento fez o telhado se desprender do resto da construção. Como se fosse um enorme bocejo a boca escancarou-se até separar-se do resto do corpo e perder-se na escuridão. A chuva açoitava violentamente o rosto e a alma da velha senhora que agarrada a sua santa sentiu-se arrastada pela correnteza do riacho que se transformara em um mar de lama e destroços despencando serra abaixo. Foi árvore, barracão, criação, Don’Ana e Santa Bárbara tudo engolido como por encanto e vomitado lá nas bandas do açude.
A manhã raiou esplendorosa. O sol ardia sobre um céu profundamente azul e o verde da mata no alto da serra brilhava qual esmeralda reluzente em um colar luxuoso que adornava o colo de uma natureza exuberante.
Um grupo de ribeirinhos pelejava em um esforço sobre-humano para resgatar um corpo enroscado entre os galhos de uma velha paineira que teimosamente afundava e vinha à tona nos redemoinhos provocados pela força da água que ainda descia da serra. Finalmente, o corpo sem vida de Don’Ana, olhos assustadoramente esbugalhados pelo terror, foi pousado em uma imensa lápide que margeava o lago. Alguns se prostraram de joelhos em oração, outros emudeceram. Nas mãos sem vida da velha senhora, Santa Bárbara salvara-se.
Claudio De Almeida
Enviado por Claudio De Almeida em 23/11/2007
Reeditado em 04/06/2017
Código do texto: T749192
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Claudio De Almeida
São Paulo - São Paulo - Brasil, 70 anos
183 textos (9266 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 17/10/17 08:21)
Claudio De Almeida

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