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NOSSO BEM E MAL DE CADA DIA

     O homem é dual. Nasce assim, revestido do bem e do mal. O dualismo nasceu com o homem, cresceu junto à sua curiosidade e desenvolveu-se junto a seu desenvolvimento. A luta do bem contra o mal é primeiro interna, emana em cada ser e transcende influenciando toda a sociedade. O legendário Zoroastro escreveu o Zend-Avesta, ali fundamenta a eterna guerra, entre a luz do criador e protetor do bem Ahura-Mazda e as trevas de Arimã, deus do mal. Aqui, hoje e ainda amanhã, seremos influenciados pelo pensamento e cultura religiosa dos Medo-Persas.
     A paisagem dos grandes centros urbanos está regada de bem e mal. Cruzam-se estas duas forças, a todo o momento, nas ruas, nos sinais, nos mercados e cinemas. O olhar em volta estará impregnado de bem e mal, quando comparamos, mesmo de maneira non sense, a arquitetura moderna de prédios luxuosos de janelas espelhadas e revestidos em mármore negro com os barracos das várias favelas que coexistem no mesmo ambiente, um tanto como imposição e resistência.
     Acordar na favela não é poético, nem bonito como mostrado nas imagens do Orfeu, de Tony Garrido. Da paisagem vista da janela, pode-se dizer que o Vidigal mostra uma exceção, é um ponto fora da curva. A brisa, o frescor de um sol ralo e ainda frio, são adjetivos que não servem para descrever uma manhã na favela. O cheiro de esgoto é maior pela manhã, o choro das crianças e os pedaços de sacolés plásticos pelo chão, ainda sujos do produto principal, desta América que temos, é o que salta aos sentidos. Um dia de renovados sonhos, é aniquilado pelo odor e pela mesma paisagem ou até pelas gargalhadas de diversos calibres, anunciando a abertura da boca ou uma invasão policial.
     Viver dividido entre o trabalho de vapor e a atividade artístico musical no R.AP deixava-o confuso. Todas aquelas letras engajadas, denunciando e discriminando as atividades marginais do mundo do tráfico produziam em sua cabeça um misto de sonho e revolta. Era preciso tomar um rumo, buscava ler, experimentava conversar com os parceiros do crime, tentava compreender as diferenças ideológicas pregadas pela galera do Hip Hop.
     Em meio a enorme confusão mental que o afligia, transcorriam as etapas do festival de Hip Hop da Associação. Era preciso ter coragem para enfrentar-se, para decidir “se”. Estava impregnado de bem e de mal. Em certos momentos, pensava ser uma bomba relógio, um homem bomba palestino pronto a entregar seu destino. Mas tinha de vender a carga, para alimentar sua mãe e irmãos. Tinha dois talentos, tinha duas escolhas e dois pensamentos. Era necessário matar um leão por dia, botar a cara para a porrada, “enfrentar a ventania” como sempre dizia, com voz rouca e séria.
     Sábado à noite, ia rolar um bonde. “Vamos sacudir geral, aqueles canalhas. O morro vai ser nosso de novo”, falava o chefe. Ele gostava do chefe, conheciam-se desde garotos, foram criados juntos. Juntos foram preparados para o crime, na escola da vida. Seu conceito de bem e mal, poderiam ser analisados como conceitos adquiridos em um mundo paralelo, uma outra dimensão, grandiosa, visível e esquecida. Era preciso decidir. Sábado à noite seria a final do concurso. Se perdesse a final, perderia a chance de mudar. De ser outro. De produzir mudanças no mundo a sua volta. Se perdesse o bonde, seria uma covardia, uma traição. Mais uma vez o dual, a eterna luta, começava por dentro e impregnava o meio.
     Amanheceu, um sábado mais bonito. Talvez porque ele quisesse que assim o fosse, talvez porque precisasse. Não acreditava em milagres, acreditava na necessidade de que o milagre acontecesse.
     No trem da malandragem o R A P foi seu trilho, ganhou o concurso, deu entrevista a jornais e revistas especializadas, falou a MTV, e assinou contrato com a  Bandana Discos. “Vou mudar a comunidade, com uma nova escolha e uma nova escola”, sonha alto. Já que é domingo à tarde e o bonde não voltou...
Sylvio Neto
Enviado por Sylvio Neto em 24/11/2005
Código do texto: T75648
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Sobre o autor
Sylvio Neto
Belford Roxo - Rio de Janeiro - Brasil, 53 anos
73 textos (11986 leituras)
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Sylvio Neto