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CASTELOS DE AREIA

         Saiu caminhando sem previsão de rota, o que aliás, era bem próprio dela. Nunca gostou das previsões, das rotas planejadas em detalhes ou das coisas previamente definidas. Surpresas sempre lhe pareceram coisas muito mais interessantes. Enquanto caminhava, estes pensamentos, para os quais nunca reservara tempo para refletir, fizeram-se uma surpresa emaranhada nos outros pensamentos que a paisagem trazia. O mar, aquela imensa quantidade de água a sua frente, igualmente eram uma surpresa. Você nunca sabe quantos metros entrará pela água até encontrar o ponto onde não dá pé para si mesmo.
         Fez uma pequena parada, molhou os pés e brincou com a água, ignorando os olhares de quem se espantava com aquela mulher que mais parecia uma criança que via o mar pela primeira vez. Não deixou de perceber os olhares, o que também era uma surpresa, porque em geral, não dava muita atenção para os demais quando estava de posse de sua solidão escolhida e necessária. Levantou um pouco a barra da calça e entrou um tanto mais pela água adentro. Sensação de descoberta. Já conhecia tudo aquilo, mas feito criança, tratou como se fosse algo que nunca houvera feito antes. Riu de si mesma, da sua pequena tolice e gostou ainda mais. Novamente, um olhar. Desta vez, atento a cada movimento seu. “Certamente, deve estar me achando uma tola infantil”, foi o pensamento que veio. Deixou o pensamento ir do mesmo modo como chegara.
        Sentou-se à beira da água e começou a brincar com a areia, fazendo pequenos castelos e picos com a areia molhada. De novo a sensação de voltar no tempo e ser uma criança. Não pensava nas preocupações temporariamente engavetadas em algum neurônio especificamente isolado para este fim. Desta vez, o olhar se aproximou um tanto mais, como se quisesse analisar com mais cuidado a cena infantil que se desenhava em torno da mulher.
       Não tinha idéia de há quanto tempo estava ali, brincando apenas. Tampouco sabia há quanto tempo aquele olhar a observava. Não se dera ao trabalho de ver o homem por detrás do olhar. Seu olhar estava ocupado com o nada, com o horizonte imprevisível e com o rumo que tomaria sua pequena construção de areia.
       Meio na base da surpresa, ele disse alguma coisa. Não entendeu da primeira vez, absorta que estava em sua tarefa de fazer nada. Ele voltou a falar e desta vez ela percebeu que era com ela mesmo.
      - Incomodo? Estava olhando você aí brincando. Estamos hospedados no mesmo lugar. Poderíamos tomar um café?
       Houve uma pequena pausa, por conta da surpresa do convite do desconhecido.
       - Para quê? Foi o que conseguiu responder
       Um sorriso franco e aberto veio em resposta. E depois, a resposta em tom de pergunta.
       - Tem que haver um porquê? Isso é um pré-requisito?
      - Não...só não entendi. Nem o conheço.
      - Se é uma questão de apresentações, a gente se apresenta e tomamos o café.
      - Não leve a mal, mas estou muito ocupada agora...e riu.
      - Eu vi. Se quiser posso esperar que se desocupe.
      - Vai demorar. Estou ocupada comigo.
      - Por isso. Gosto de gente que se ocupa de si mesma. 
      - Fica pra outra vez. Talvez ...não sei. Na verdade, acho que não haverá outra vez.
      - Pena. Teria sido uma ótima surpresa pra mim se aceitasse.
       “Também para mim”, pensou ela. Teria sido uma surpresa. Mas desta vez, não queria mais nenhuma surpresa. Só a certeza do mar adiante, dos pés e mãos na areia e da vontade de ficar ali, descobrindo sua criança, meio esquecida havia muito. Quem sabe, numa outra encarnação ou quando o castelo desmoronasse.


Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 05/01/2006
Código do texto: T94823

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
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Débora Denadai