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AMOR EM CONSTRUÇÃO: O JARDINEIRO É A CHAVE

      
Lenta. Sempre muito lenta. Lenta pra decidir coisas importantes. Rápida pra escolher o que usar ou onde ir. Mas há uma distância impossível entre escolher e decidir. E o caso não era escolha, que esta o coração faz por nós. Decidir o que fazer com a escolha é outra coisa bem diferente. Um dia, distantes os dois, o ELE (que não era um ele qualquer, mas o ELE dela) escreveu uma carta preocupada e com uma boa dose de angústia sobre o futuro daquele sentimento que brotou no jardim feito flor do campo, que aparece sem ninguém plantar, cresce sem que ninguém cuide muito e finalmente desanda a florescer quando ninguém se deu conta. E aí as flores aparecem tanto que só sendo cego pra não ver.
        Mas o Ele era um arquiteto. Seu castelo via todos os aspectos estéticos da construção, cuidava dos desenhos e contornos de cada pedaço da construção e se perguntava o que iria fazer com aquilo que construíra e onde, ela, a princesa da história parecia não decidir-se a ir habitar definitivamente. Lenta. Não decidia. Não dava o passo e as flores do campo ameaçavam murchar ante sua indecisão.
        Não. A coisa não era bem assim. Ela vivia nas ruínas de um castelo de outra história e todo mundo sabe que não se constrói coisas novas sem antes limpar o terreno, retirando os eventuais destroços e sobras de demolição e, principalmente, deixar claro para o antigo morador, além da própria, que ele tinha que mudar de endereço porque aquele conto já tinha terminado, o castelo havia sido demolido e não havia lugar mais para o antes. E , principalmente, que para os dois antigos moradores, não havia mais nós. Talvez fosse isso que o Ele não entendesse na indecisão que parecia tomar conta da moça.
       Chegou o dia em que, finalmente, ela já havia completado o serviço e tinha o terreno pronto para a nova construção. E então começaram os trabalhos de erguerem a nova casa para os novos moradores, com um cimento amoroso de primeira para que a coisa se erguesse sólida. Ele, já foi dito, era um arquiteto. A moça, uma engenheira. A diferença está nos cálculos. Um baseava sua certeza de algo perfeito na beleza dos seus sentimentos. A outra, de tanto apanhar tentando construir em cima da beleza dos sentimentos, cedo descobriu que são necessários cálculos muito precisos pra manter a estrutura bonita funcionando. Entra aqui a tal história de que metade da coisa é o fogo da paixão e dos sentimentos e que a outra metade é a parte da conveniência. Melhor dizendo, a outra metade é o mundo lá fora. As interferências.
       Interferências, sim. Esta coisa é como uma estação de rádio cujas potentes antenas captam sinais de todas as estações da vizinhança. Mesmo as mais distantes. E ela sabe, pelas interferências, que outros operários e/ou operárias trabalham em silêncio ou com grande ruído, para destruir a construção que os dois vêm fazendo com tanto esmero. Ela percebe, em cada ruído, em cada silêncio e mesmo nos momentos de silenciosa e atenta observação, que o mundo dele jamais será o mundo dela. O castelo sobreviverá apenas da beleza dos sentimentos? Os cálculos devem ser refeitos? São perguntas que ela não pode responder. Lembra-se apenas do flamboyant plantado por ele no jardim que um dia ele encontrara abandonado às urtigas e mato. A imagem da árvore em fogo sustenta as fundações da nova casa. As portas ainda não se fecharam. O arquiteto, feito jardineiro, é a chave.

Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 11/01/2006
Código do texto: T97207

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
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Débora Denadai