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A FAMÍLIA



Ele chegou em casa preocupado. No caminho, viera cantarolando uma música que Ivinho gostava.
Abriu a porta e chamou por Clarinha: Amor!
Sua esposa, tão amada, veio pelo corredor sorrindo. Já chegou querido?
Os meninos gritavam no quarto, mas ao ouvirem sua voz, vieram correndo.
"Pai, pai, o que o senhor trouxe para nós??"
"Um beijo para cada um", respondeu. Abraçou os três bem apertado e pensou como amava aquela família. Sua família.
Daria a notícia depois do jantar. Avisou Clarinha que iria tomar um banho enquanto ela colocava a mesa.
Estava no chuveiro e seus pensamentos voltaram-se para aqueles homens. Agentes do DOI-COD. Hum. O que será que queriam? No seu íntimo já sabia. Era algo relacionado ao Partido, com certeza.
Deixaria para se preocupar com isso pela manhã, quando tivesse que ir até a delegacia. Não traria problemas para casa, não agora que havia recebido a tão sonhada promoção. Afinal, era diretor de jornalismo da TV Cultura!
Após o banho, já estava mais aliviado. Clarinha, muito observadora, perseguia seu olhar. Algo não estava certo, tinha uma preocupação no ar, no semblante de seu marido.
Valdemir esperou que as crianças fossem dormir e segurou a mão de sua mulher. Contou-lhe que os policiais tinha-lhe procurado e que lhe fizeram muitas perguntas. Queriam prendê-lo, mas como propôs ir depor espontaneamente, o aguardavam pela manhã. Clarinha perguntou se queria companhia e ele disse não. Não colocaria sua mulher no meio disso tudo.
No dia seguinte, ao vestir-se para sair, sentiu um aperto no coração. Olhou o perfil de Clarinha tão tranquilo. Foi ao quarto dos meninos. Dormiam. Saiu rápido para não acordá-los.
Entrou no carro e o sentimento o perseguia. Era uma angústia, como se algo muito ruim fosse acontecer. Será que era o seu faro de jornalista?
- Pensou em todas as coisas que gostava de fazer. Pensou no sítio, nas crianças correndo atrás dos patos, das galinhas. De como gostava de pescar. Pensou no seu medo de dirigir. De como fitava as pernas de Clarinha quando era ela que estava ao volante. Tocou sua Pentax. Tantas fotos lindas tiradas com ela.
Seu pensamento voltou-se para Deus. Sempre fora ateu, mas, naquele momento, algo mais forte que suas crenças fez com que pensasse Nele. Mesmo não acreditando, sabendo que não voltaria mais para casa, diante do portão ele pediu: Senhor, proteja a minha família!
Ligou o carro e saiu devagarinho...

CRISTIANE DONIZETE
Enviado por CRISTIANE DONIZETE em 18/01/2006
Reeditado em 11/05/2006
Código do texto: T100659
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Sobre a autora
CRISTIANE DONIZETE
São Paulo - São Paulo - Brasil
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CRISTIANE DONIZETE