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ENERGIA DE VIDA

Quanto mais energia gasta, mais energia há pra se usar! Não é como os recursos naturais, que um dia esgotam-se. É recurso próprio. Não se esgota facilmente. A não ser quando a morte chegar pra acabar com a festa.

E naquele dia a festa era de limpeza, muitas solicitações, demandas com fornecedores, coordenadas aos serviçais... Nem mesmo a saúde debilitada impediu-a de estar presente em todas as etapas da mudança.

E há coisa mais exigente de energia do que mudanças? Adicionando uma grande porção de ansiedade, cansaço transformado em mais energia à disposição para ser utilizada e boas novas inesperadas... Nenhuma palavra que seja escrita aqui seria fiel à descrição de como ela se encontrava naquele dia.

Sua mente trabalhava em mil projetos, pensamentos, questionamentos, somas e subtrações, compromissos e criatividade, claro. Por vezes, parecia transtornada, desgostosa e insatisfeita. Não. Nada disso. Tudo não passava de reflexo do cansaço físico que lhe era peculiar lutar contra, incessantemente resistir-lhe.

Olhava o céu, num forte azul salpicado vez ou outra por nuvens que logo se dispersavam pelo vento fresco, bem-vindo e sempre querido. Fazendo par com o sol tornava aquela tarde perfeita a seus olhos.

Tinha ouvido pela manhã um elogio: “Mulher linda, jovem, inteligente...” Não queria trazer à memória o final da sentença. Compartilhá-la? Jamais! Seu orgulho feminino não lhe permitia expor as debilidades que lhe afligiam. “Tudo voltará ao normal e o ritmo diminuirá em poucas horas! Amanhã pego o carro, pela estrada afora eu vou bem sozinha sem doce pra vovozinha que não mais existe e com muito amor no peito por quem fica só por um par de dias”.

“É isso! Será bom para ambos. Não verá minha ansiedade e já que o que os olhos não vêem o coração não sente, então não se afligirá e eu não me culparei por isso”.

Tudo, como um mais um são dois, tudo que ela deseja é vê-lo feliz, tranqüilo como sempre fora, desde que se conheceram. Muito bem ele lhe faz, e ela tenta retribuir. Quando alguma situação lhe atordoa, ela sabe que o afeta indiretamente e de forma negativa. O que jamais gostaria que acontecesse...

Então, numa pausa, senta naquele frio chão, ainda sujo, nada à sua frente. Apenas as poucas e pequenas caixas com seus parcos pertences – e cuidadosamente confere os dele. Sim, a maior parte consigo mesmo a mantém. Não entende o porquê disso, e também deixa no ar o questionamento nunca feito a respeito...

E para gastar o tempo que ainda lhe resta de descanso – alguns minutos – escolhe observar os objetos ali, à sua frente, dentro das caixas entreabertas, algumas sacolas plásticas que lhe permitiam ver caixas rosas, amarelas, azuis... Uns fios elétricos da extensão tão útil para ambos, cadernos, livros, apostilas – apenas os mais necessários ou de valor sentimental (ainda não havia espaço para todos os que possuem) – e aquele cesto plástico fosco transparente que para ela foi uma aquisição da qual se orgulhava! Simpatizou com o objeto... Também não sabia porquê. E naquele lugar, o cesto bem ali no meio da sala, rodeado de caixotinhos... Sua bolsa dentro dele. Não poderia deixar em outro lugar. Escolheu acomodar sua bolsa, com documentos, cartões de banco, alguns trocados, exatamente dentro daquele cesto.

Observando-a, “mulher linda, jovem, inteligente” (como ela havia ouvido mais cedo naquele dia), o que poderia passar na mente ao vê-la sorrir levemente – como um sorriso de Mona Lisa, com suas unhas por fazer e mãos sujas da poeira impregnada em cada canto dali...

E a campainha do telefone lhe tira das suas distrações momentâneas trazendo-a pro mundo real.

Precisa se alimentar. Mal se lembrava de que é formada por um organismo vivo, que possui um estômago que carece de algum bom nutriente e vitaminas para o corpo, os músculos, a memória, o sangue que faz a vida correr aquecida por si toda, aquecendo-a por inteiro.

Passaram-se as horas com rapidez. Como de súbito ele surge, lanche caprichado em uma das mãos, na outra, um carinho especial em sua face. Bem-vindos ao lar. Ambos sorriram e olharam ao redor com satisfação. Suas vidas progrediam, seus sonhos e desejos aconteciam.

Energia que vale a pena acumular, utilizar, recarregar e novamente o ciclo iniciar!


ana K
Enviado por ana K em 19/01/2006
Código do texto: T101164

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Sobre a autora
ana K
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