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OS BÊBADOS DO MERCADO

Ali pelas redondezas do mercado da Bandeira Branca tem uma súcia de bêbados que, sem ter outros afazeres, adotou o local como residência. Devem ser mais ou menos uns sete ou oito maltrapilhos que de dia ficam pelas barracas pedindo moedas e alguma coisa para comer e, à noite, com o pouco que arrecadam compram bebidas alcoólicas. Muitos cachorros, sem nenhuma importância para os donos, andam à tuna pela feira, angariando aqui e acolá algum bocado de alimento. O fato é que, um dia, um dos viciados teve uma idéia que, a princípio, chocou os outros companheiros de infortúnio.
- Mas Rufino – argumentou Severo – isso é doidice tua!
O outro, com a boca falha de dentes e cabelos despenteados, argumentou:
- Ora! Não se come boi, não se come carneiro e outros tantos bichos? Qual o problema de comer cachorro?
A idéia era macabra, e Severo, o mais velho da turma, com uma ferida enorme na canela esquerda, vergou a cabeça como se começando a abraçar a idéia. O velho Paulo, com seus cabelos ralos e sua barba dura apenas riu daquele despropósito.
Ficaram ali, sentados na calçada do prédio, urdindo aquele intento, alheios um féretro que passava pela Dr. Freitas rumo a algum cemitério da BR.

No outro dia à tarde era sábado e muitos feirantes já tinham fechado suas baiúcas. A feira, com suas ruas estreitas e lamacentas da chuva da manhã, estava praticamente deserta. Já davam 14 horas e os “papudinhos”, como são conhecidos os alcoólatras por estes lados, estavam impacientes. Decerto queriam que a feira  acabasse de vez naquele dia para começarem a pôr em prática aquela combinação grotesca.

Naquela tarde, uma senhora gorda de cabelos grisalhos e nariz achatado, moradora da Dr. Freitas, para onde se avista uma baixa, estranhou que um dos vagabundos, um baixote com uma vasta queimadura na perna direita desde o alto do fêmur até o tornozelo, puxava um vira-lata por um fio elétrico.
Dali a dois dias se repugnou quando Marilda, a impertinente vizinha da casa da direita, contou a ela que os desocupados da feira haviam matado um cachorro para servir de tira-gosto.
Enzo Carlo Barrocco
Enviado por Enzo Carlo Barrocco em 24/01/2006
Reeditado em 24/09/2008
Código do texto: T103280
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Sobre o autor
Enzo Carlo Barrocco
Belém - Pará - Brasil, 56 anos
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Enzo Carlo Barrocco