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Correspondência Fatal



 Três pessoas acompanharam Marlene à sua última morada: o Dr. Castro, seu dedicado médico; dona Adélia, sua madrinha; e eu, seu ex-noivo.

 O choro convulsivo da velha senhora, a fisionomia melancólica do bondoso doutor, os olhares parados e indiferentes dos coveiros, as pancadas surdas da terra sobre o caixão, fizeram-me derramar lágrimas amargas de tristeza e de saudade. Estavam sepultando o meu primeiro e infeliz amor.
 Ao sairmos do cemitério, dona Adélia entregou-me um envelope:
-- Ela queria que esta carta lhe fosse entregue... agora...

 Corri para casa, impaciente por ler as últimas idéias, os derradeiros sentimentos de Marlene.
 Lá, no meu quarto, estava o seu retrato, sorrindo para mim, aquele enigmático sorriso de Gioconda.
 Enquanto, nervosamente, abria o sobrescrito, lembrei-me, em poucos segundos, dos fatos principais que influíram na minha vida, depois de nela entrar Marlene: namoro, noivado, ciúme, briga, loucura e morte...
 A carta, diante de meus olhos, estava sem assinatura; mas sua caligrafia era inconfundível.

 Meu paciente e infeliz amigo:
 Só agora te posso contar a tragédia que envolveu minha família e arruinou nossas vidas.
 Como deves estar lembrado, a extrema pobreza de meus pais fez com que eu fosse, desde pequena, criada por minha madrinha. Com ela viajei, estudei, fiz-me moça.   Ela era a minha família, pois nenhum contato tive mais com aqueles que me deram o ser. Apenas de longe em longe avistava-me com qualquer de meus parentes mais próximos.
 Quando tu apareceste em minha vida, eu era a mais feliz das jovens... Nosso amor era calmo, seguro, normal. E eu antevia o futuro comum: casamento, filhos... Vida sossegada e burguesa...
 Um dia, tentando uma ligação telefônica, houve um desarranjo qualquer na linha e, como resultado, conversei com um rapaz  desconhecido e gentil.
 Falamos durante muito tempo e sobre todos os assuntos, desde o acaso de uma ligação errada, até a influência da música nos espíritos românticos, assunto esse que deu margem a que ele dissesse da influência de minha voz sobre sua alma.
 Como eu não quisesse dar meu nome, ele fez uma proposta entusiasmante: que nós mantivéssemos uma correspondência absolutamente impessoal, isto é, cartas escritas à máquina, pseudônimos, posta restante etc.
 Aceitei o convite, pois nele nada mais vi que uma inocente aventura sem conseqüências, uma vez que nunca nos conheceríamos.
 Tudo combinado, inclusive os pseudônimos,  recebi a primeira carta de Romeu para Julieta...
 E, durante alguns meses, trocamos idéias e sentimentos... mais sentimentos que idéias...
 Dizem que o mistério e a curiosidade são a causa espiritual do amor. E eu comecei a imaginar, a desejar...
 Aquelas cartas, envoltas em tanto carinho, foram-me fazendo sentir algo mais que a curiosidade... e creio que comecei a amar o meu desconhecido correspondente.
 Era um estranho sentimento o meu: misterioso... incompreensível...
 Minha afeição por ti foi esfriando... foi abandonando meu coração, dando lugar àquele sentimento novo... fui, aos poucos, ficando indiferente às tuas delicadezas, aos teus cuidados e carinhos.
 Quis fugir, abandonar o que, imperiosamente, teimava em querer dominar a minha alma. Procurei, numa vã tentativa, ocultar aquela paixão que me arrastava.
 Por fim, reconheci a inutilidade dos meus esforços: não resisti à luta terrível entre meu coração e meu cérebro;
 Fui forçada a brigar contigo, a dizer que não te amava, a te mandar embora...
E me entreguei inteiramente, sem reservas, ao meu novo amor...
 Mais alguns meses se passaram...
 Foi-se tornando premente a necessidade de um conhecimento pessoal. O temor de uma decepção foi desaparecendo com a crescente solidez do meu afeto.
 Finalmente, combinamos um encontro.
 Tremendo de emoção, fui ver aquele que, espiritualmente, me dominava; aquele que me hipnotizara com suas cartas; aquele que era senhor absoluto do meu coração.
 Um grito angustiante, partido do fundo de minha alma, marcou aquele fatal encontro... o choque foi demasiado forte para que meu cérebro fraco pudesse resistir...Desmaiei...
 O destino cruel e zombeteiro, jogara-me ao encontro de meu próprio irmão;
 E esse foi o motivo do suicídio do pobre Jorge...
 Esse foi o drama que me arrastou ao hospício...
 Somente agora, quando sinto a ronda da morte, lembro-me de tudo...
Julio Sayão
Enviado por Julio Sayão em 25/01/2006
Código do texto: T103889
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Sobre o autor
Julio Sayão
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 93 anos
65 textos (39436 leituras)
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Julio Sayão