Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

O Correio de Mato Grosso


 Raiava a manhã de terça-feira, vinte e sete de dezembro de mil oitocentos e sessenta e quatro. As sentinelas do Forte Coímbra mal conseguiam divisar, através do denso nevoeiro, o perfil gracioso do Morro da Marinha.
 Por volta das cinco horas, quando a cerração já estava quase dissipada, um dos vigias divisou, uma légua rio abaixo, alguns vapores fundeados. O oficial de serviço reconheceu a bandeira tricolor dos "lopezguaios".
 Porto Carrero, comandante do Forte, ordenou fossem ocupados
os postos de combate. Sua reduzida guarnição de quinze homens, acrescida de alguns índios, civis, presos e guardas da Alfândega, contava um efetivo de cento e cinqüenta homens. Cinco bocas de fogo foram guarnecidas por trinta e cinco combatentes; quarenta homens foram espalhados pela seis banquetas de linha; as dez seteiras da Segunda bateria foram ocupadas pelos oitenta restantes, sob o comando do heróico tenente Oliveira Melo.
 Às oito e meia, um escaler, munido de bandeira branca, aportou ao Forte. Dele saltou um tenente, vistosamente uniformizado. Levado à presença de Porto Carrero, o paraguaio entregou-lhe uma carta:
 -- "La intimación del Señor Colonel Vicente Barrios!"
 O chefe brasileiro ficou vermelho de raiva, ao ler aquele papel que tratava de sua rendição, dentro de uma hora.
 Indignado, rabiscou uma resposta: não se renderia; a não ser por ordem superior, só entregaria o Forte pela sorte das armas.
 O vapor Jauru, imediatamente, iniciou a subida do rio, a fim de levar ao Coronel Carlos Augusto de Oliveira, Comandante das Armas da Província, a notícia da agressão.

 Deixemos o Forte Coímbra entregue a seus heróicos defensores e sigamos o Jauru, que chegava a Corumbá.
 Alarmadíssimo, Carlos Augusto resolveu mandar o Jauru de volta a Coímbra, com algum auxílio em homens e suprimentos. Era tarde, porém. Encontrando o Anhambaí que vinha com os retirantes, o vaporzinho regressou a Corumbá.
 Foi um "Deus nos acuda"! O pânico imperou na pacata vila. Todos queriam fugir ao inimigo feroz. O Comandante das Armas, contra a opinião do Chefe da Esquadrilha, determinou a retirada. Se Coímbra, com sua artilharia, nada pudera fazer, ele mesmo, é que não poderia enfrentar os paraguaios, com os reduzidos meios de que dispunha. Influiu, ainda, na decisão do velho Coronel, o natural instinto de conservação afinal de contas, ele era um chefe de família, cheio de responsabilidades...).
 A "paz" com que se fez a retirada de Corumbá, foi a maior confusão da história de Mato Grosso. Todos queriam  ser os primeiros a embarcar. Foi preciso que Carlos Augusto lançasse mão de toda a energia. A retirada tinha que ser feita em ordem: primeiro as mulheres e as crianças... e ele...

....................................................................................................................................................................................................................

 O Barão de Vila-Maria, além de suas vastas propriedades em São Luís de Cáceres, possuía, em Cuiabá, uma formosa Quinta, somente comparável à do Presidente da Província, o velho e brioso General Albino de Carvalho.
 Vila-Maria, casado e próspero, era bastante conhecido por sua bravura e pela sua honradez. Aparentava uns quarenta anos,  embora, na verdade, contasse cinqüenta. Era de elevada estatura e possuía  uma formosa e bem aparada barba negra.
 Naquela tarde de seis de janeiro, o Barão cochilava, na rede da varanda, , sua sesta costumeira, quando o negro que fora buscar a correspondência, chegou com a notícia:
 -- "Tá tudo arrevirado! Só vendo! Seu coroné Olivera chegô, dizendo que os paraguá invadiu a provinça, lá pros lado de Coímbra!..."
 Vila-Maria pulou da rede, mandou preparar o cavalo e, rapidamente, aprontou-se para ir a palácio.
 O Presidente estava tonto com a nova. Não sabia o que fazer. Era preciso mandar um correio ao Rio de Janeiro. Mas, quem?
 Foi quando Vila-Maria entrou na sala esbaforido e se apresentou ao General, pedindo-lhe uma qualquer missão. O solo brasileiro estava sendo pisado por estranhos: ele não poderia ficar inativo!
 Albino de Carvalho viu, no Barão, o homem de que precisava.
..........................................................................................................

 Clareavam o céu os primeiros alvores da madrugada do dia sete, quando, pela estrada de Bela Vista, partiu, a todo galope, estimulado por esporas e chicote, o soberbo e fogoso cavalo, em que ia montado o Barão de Vila-Maria.
 Durante quarenta e sete dias (tempo excepcional para a época), o ansioso mensageiro estafou cavalos pelo caminho, não dando importância à sede, à fome, ao sono...
..........................................................................................................

 Enquanto, em demanda da Capital do Império, corria o velho fidalgo,  os paraguaios tratavam de consolidar suas posições no território invadido, encontrando heróica, mas fraca resistência.
..........................................................................................................

 Na manhã do dia vinte e dois de fevereiro, batiam oito horas na Igreja de São Joaquim, quando quatro ferraduras, em disparada, entraram no pátio do Itamarati, arrancando fagulhas das lajes do calçamento.
 Um cavaleiro, coberto de suor e poeira,  atirou-se do cavalo ainda em movimento. Era o Barão de Vila-Maria, o Correio de Mato Grosso, que chegava com a dolorosa notícia.
 O cavalo, tendo galopado cerca de cem quilômetros em uma noite, deu mais alguns passos e caiu, deitando espuma pela boca e sangue pelas narinas. Como aquele célebre mensageiro da Maratona, ele morria depois de cumprida a sua missão!


 O Ministro, no seu gabinete de trabalho, perturbado pelo rumor de vozes e pelo tinir de esporas, abriu a porta do corredor e encontrou-se, face a face, com o Barão de Vila-Maria, que entrava ofegante.  Este, respeitoso, deu um passo à retaguarda e, tirando da algibeira um maço de ofícios, anunciou, dramaticamente, com cinqüenta e sete dias de atraso:
 -- Excelência, a província de Mato Grosso "ACABA" de ser invadida!...
Julio Sayão
Enviado por Julio Sayão em 25/01/2006
Código do texto: T103892
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Julio Sayão
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 93 anos
65 textos (39436 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 10/12/16 01:10)
Julio Sayão