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O IDEALISTA


 A gargalhada foi geral, quando o Teixeira disse que ia casar.
 -- Mais uma do Teixeira!... -- disse o Lopes, entre dois acessos de riso.
 -- Essa é muito boa!... -- acudiu o Batista, enxugando os olhos.
 --Ora vejam, o Teixeira casado... --exclamou o Mesquita,, olhando para os outros, como quem espera aplausos. com as mãos na volumosa barriga

 O Gomes, num gesto cômico, pôs a mão espalmada na testa do Teixeira, a ver se tinha febre. Este  conservava-se sério, no meio dos alegres amigos que, ainda rindo e gracejando, ora puxavam-no pelo paletó, ora empurravam-no pelo ombro.
 Quem primeiro notou a seriedade do Teixeira, foi o Mesquita. Olhando com cara meio aborrecida e meio penalizada para o rosto sereno do amigo, perguntou com incredulidade:
 --Mas... é verdade o que está nos dizendo?
 -- É verdade, amigos; vou me casar; acho que já é tempo de parar com essa vida de dissipação que tenho levado!...

 -- Mas, homem de Deus, -- tentou o Lopes, -- você tem coragem de deixar seus companheiros de vinte anos? E logo p'ra quê? P'ra se casa-- É pena! -- Falou o Batista. ----- Um homem com quarenta e dois anos... estragar a vida em plena mocidade!...
 -- E quem é ela? -- Perguntou o Gomes, interessado. -- Será a Diva? Ou a Eunice?...
 -- Nada disso! -- Repeliu o Teixeira, ofendido. -- É u'a moça distinta, que não deve ser lembrada, quando são citados os nomes dessas... bem, dessas mulheres!...
 -- E nós a conhecemos? --Inquiriu o Mesquita.
 -- E ela nos conhece? -- Perguntou, quase ao mesmo tempo,  o Batista.
 -- Não! Já disse que é u'a moça distinta!...Ela não conhece homens da marca de vocês!...
 -- Como, então, você a conheceu? -- Gritou o Lopes, com um olhar de triunfo.
 Teixeira ruborizou-se, mas não perdeu a calma.
 -- Foi na casa do Dr. Queiroz... É a filha dele... Bem, eu a conheci e é o quanto basta! Vocês não têm nada com isso!...

 Realmente, o Teixeira estava apaixonado. Fora o que se chama, geralmente, um amor à primeira vista. A sensação que sentia era inteiramente nova. Compreendia, agora, o quão absurda fora a sua vida até ali, gastando à larga, sem pensar no dia de amanhã. O aparecimento daquela moça viera transformar seus pensamentos e pôr um fim à sua vida de devassidão.
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 O casamento do Teixeira realizara-se havia quase um ano. O homem estava completamente transformado. Não era mais o mesmo Teixeira que, durante quase vinte anos, dissipara grande ,parte da fortuna herdada de uma tia do interior.  Aquele rapaz estouvado, conhecido freqüentador de clubes noturnos, aquele homem viril, cuja personalidade fazia  cócegas nos corações femininos e trazia, em constante sobressalto, os corações dos maridos, nada mais tinha em comum com o  Teixeira chefe de família.
 Quem vira, outrora, aquele cavalheiro elegante, metido numa casaca, dando a impressão de um aristocrata devasso, não o reconheceria agora, tipo consumado de pacato burguês. Teixeira, metido num terno de brim barato, embora vivesse do que lhe rendiam a fazenda em Volta Grande e o pecúlio no Banco, dava a impressão de um humilde funcionário público. Do antigo Teixeira, apenas conservava aqueles expressivos olhos, castanhos e vivos como duas brasas. Ele era, agora, pai de um robusto menino e sua vida resumia-se na esposa querida e no filho adorado.
 Teixeira tinha grandes idéias. Não queria que o filho o que ele próprio fora.
 -- Se eu viver mais vinte anos, -- costumava dizer, -- hei de ter a alegria de ver, em meu filho, um homem útil a si mesmo e a seus semelhantes!
 E, se as idéias eram boas, a execução delas era ainda melhor: o Joãozinho (assim se chamava o pequeno) desde a infância, era criado dentro de casa, tendo tudo o que um pai rico e extremoso pode dar. Era uma ave rara, numa gaiola de ouro.

 O professor Bráulio, um velho celibatário, era o seu mestre, pois o Teixeira, achando que as companhias são a perdição do homem, não queria que o menino fosse à escola, para que não se misturasse...
 E assim foi crescendo o menino mimado que, nada conhecendo do mundo e não tendo outras distrações que não o estudo, com quinze anos já era um conhecedor profundo da matemática e das ciências, das línguas e da História. Revelando inteligência fora do comum, bem como um espírito ultra-sensível, apaixonou-se pelos estudos de filosofia, o que muito aborreceu dona Olga, sua extremosa mãe, que sendo fanaticamente religiosa, muito sentia, com o ceticismo do filho.

 Passaram-se os anos...
 Chegou, finalmente, o dia em que Joãozinho completou vinte e um anos. Teixeira chamou-o em particular:
 -- Meu filho, -- disse ele, é chegado o momento em que deves enfrentar o mundo. Estás com vinte e um anos, idade em que deves tomar rumo, procurar uma ocupação. Minha fortuna que, quando moço, quase dissipei, está reconstituída e eu a ponho à tua disposição.
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 Joãozinho era professor de uma escola particular.
 Como era de se esperar, o moço sentiu grande diferença entre o mundo que imaginava e o mundo que realmente existia.
 Como estava enganado!
 Ele, que fazia da vida um paraíso, onde ansiava por entrar, encontrava um caos, de onde queria sair...
 Visto pelo prisma cor-de-rosa da imaginação e ampliado pelas lentes otimistas dos tratados  filosóficos, o mundo parecia uma sociedade ideal, onde todos usavam a razão e se compreendiam perfeitamente. Aos poucos, porém,  foi Joãozinho compreendendo o erro que cometia. O que ele via era uma sociedade corrompida, onde a sede do ouro promiscuía-se com a falta de moralidade e onde os homens usavam a consciência, o caráter, a sabedoria, como instrumentos de sua maldade.
 A primeira grande desilusão que teve o nosso amigo, foi com uma mulher. Como sempre, a mulher contribuindo para a perda do homem.
 Joãozinho, como Adão, encontrou uma mulher e esta, como Eva, derramou em seu espírito o veneno do pecado.
 Ele jamais vira outra mulher, que não a sua mãe, dona Olga. Embora estivesse prevenido por seus livros de filosofia, apaixonou-se pela primeira que apareceu
.Pobre Joãozinho!... Quão cego estava, que não reparava que espécie de mulher ele escolhera!...

 Vanda era uma beleza fora do comum. Seu corpo esguio, elegante, movia-se com graça e sensualidade. Seu olhar era vivo e inteligente e o seu sorriso encantava, porque mostrava duas adoráveis fileiras de dentes Qualquer homem, mais experiente que Joãozinho, adivinhava-lhe o tipo... Ele, porém, nela via todas as virtudes... Ela era uma deusa e ele a colocava num altar!...
 Um dia, contudo, esse castelo ruiu. Joãozinho, que idealizara mil projetos, viu cair, um por um, seus ideais... Ele compreendera o erro. Em suas idéias, sem sombra de maldade,  ele concluiu que era impossível  sua união com uma mulher daquela espécie. A mulher que ele divinizara, não merecia ocupar tal lugar em seu coração. Ele a colocara no céu e ela não caberia, a seu ver, nem mesmo no inferno!...
 Muitas outras desilusões foi tendo o pobre rapaz que, vendo o quão corrompida estava a humanidade, ficou enojado do mundo, a ponto de acusar seu pai do crime de ter sido o autor de seus dias.
 No espírito perturbado de Joãozinho, uma idéia foi tomando vulto: -- E se ele tentasse reformar o mundo? Se saísse a pregar a sua filosofia?  -- Não era absurdo, não! Muitos outros haviam tentado; alguns fracassaram... outros lograram algum  êxito...
 E, na sua imaginação, Joãozinho via-se cercado de discípulos, a espalhar, entre os homens, os seus sonhos de humanização, de igualdade, de solidez de caráter, de não agressão, de relações amigáveis e fraternas entre todos os seres... Via a posteridade glorificando o seu nome... Via o seu busto venerado, em praça pública, e a sua memória imortalizada pela sua obra...

 E Joãozinho saiu pelo mundo, a pregar suas idéias...

 Nas aulas, explicava sua teoria aos alunos mais adiantados. Na biblioteca, onde contava alguns companheiros amantes da leitura, angariou, com seus discursos, novos e numerosos adeptos.

 E o tempo, indiferente a tudo e a todos,  continuava a sua marcha para o infinito...
 O velho Teixeira, orgulhoso do filho, morreu feliz. Dona Olga, já cansada da vida, deixou, também, este mundo que Joãozinho queria reformar.
 Vendo-se só,  sentiu-se o nosso herói mais à vontade, para continuar o caminho que escolhera. Abandonou a escola, resumindo a sua vida no novo apostolado.

 E o dinheiro, mola do mundo, senhor absoluto do Universo, foi minguando... minguando...
 A fazenda, em Volta Grande foi vendida; o capital, no Banco, foi diminuindo...

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 João!!!...
 O mendigo levantou a cabeça e encarou a mulher que o chamava..
 Sim, era ele, o Joãozinho da nossa história. Era ele, o idealista, quem ali estava naquela esquina, sentado no chão, mostrando, no rosto enrugado e barbado, os efeitos dos vícios mais degradantes.
 Joãozinho olhou fixamente aquele vulto de mulher à sua frente. Era ela mesma!.... A mulher que outrora fora a sua paixão!...  Que ironia: ele, o idealista, ali estava descalço, coberto de trapos, cabelos e barba grandes, rosto devastado, olhos injetados pelo álcool; ela, a materialista, cuja vida dependia, exclusivamente, do seu corpo, ali estava cada vez mais bela, elegante, perfumada, os lábios vermelhos entreabertos...
 Joãozinho sentiu uma onda de ódio invadir-lhe o peito. Revoltava-se, mais uma vez,  contra o destino cruel e injusto!...
 -- João!... É você mesmo?!... Como está magro!... Que aconteceu?...
 -- Deixa-me em paz, mulher!... Por quê não segues o teu caminho? -- Foi a arrogante resposta.
 -- Mas... João!... Porque você me repele? Eu que sempre fui sua amiga!?...
 -- Amiga!... Amigos!... Não sei o que significa essa palavra!... Eu nunca tive amigos!... Vês o meu estado? Meus "amigos" me colocaram aqui!...
 -- João, -- balbuciou ela, com lágrimas nos olhos, -- você, uma vez me desprezou... disse que eu não prestava... achava  que o meu nível  era inferior ao seu... Eu não quis me elevar... mas sempre o amei!... Você foi o primeiro amor verdadeiro que tive... primeiro e único!... Conheci, em minha vida, muitos homens... a nenhum eu amei tanto quanto a você... que nunca conheci!...
 -- Agora, -- continuou ela, -- você desceu ao meu nível; eu poderia cuidar de você... Prometo ser carinhosa... não lhe faltará nada!... Verá que o mundo não é tão amargo, como parece!...

 Joãozinho, decaído moralmente, desceu mais um degrau da escala social, aceitando a degradante proposta...

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 E este foi o fim do homem que queria reformar o mundo!
 Um homem que se revoltou contra a humanidade corrompida, finda seus dias em meio à podridão que tanto combatia!...
Julio Sayão
Enviado por Julio Sayão em 25/01/2006
Código do texto: T103899
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Sobre o autor
Julio Sayão
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 93 anos
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