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ESQUECER NUNCA, PERDOAR JAMAIS/ fragmento de um todo maior.


Não. Não era um sonho. Eu sentia as dores em minhas costas causadas pelo açoite do chicote inclemente. Mas eu estava sonhando. Tinha plena certeza disto. E estas correntes que prendiam meus braços e pés, eram de verdade ou fruto de um
sonho irreal.

Tento mover meu corpo e não consigo. Estou preso a um tronco no meio de um
pátio. Mas não estou sozinho. Há um outro homem também preso a um tronco que acredito que já esteja morto, ele não se movimenta mais, seu corpo esta em carne viva. As moscas fazem festa na suas costas. Mesmo assim o maldito capataz não interrompe suas chibatadas. É um castigo. Ele necessita mostrar quem manda.

Agora sei que é um sonho. Estas coisas só acontecem nos sonhos. Não vejo a hora de despertar. Ouço alguém chorando perto de mim. Olho com atenção para a mulher que chora. Seu sofrimento é verdadeiro. Vejo isto em seus olhos. Ela me parece conhecida. Para confortá-la esboço um sorriso e tento falar alguma coisa. Mas o que sai da minha boca ensangüentada não são palavras. Não conseguia entender o que estava acontecendo.

 Então comecei a sentir um medo indescritível. O que parecia ser
um sonho, estava se transformando em um pesadelo  vivo e
real, de conseqüências assustadoras. E se morresse de tanto apanhar. E se tudo fosse verdadeiro. E se não estivesse sonhando. E se....

O chicote sibilava no ar e sua trajetória tinha um destino. Minhas costas. As
primeiras chicotadas minaram com as esperanças que eu tinha de acordar em um outro lugar que não fosse este.
 
Aos poucos as dores começaram a desaparecer e um torpor tomou conta de todo o meu corpo. Então tudo a minha volta começou a desaparecer lentamente.... só o estalar do chicote e sua cadência incansável é que permanecia em meus ouvidos.... Fechei meus olhos e comecei  a rezar.

Minha reza era interrompida a cada chibatada que recebia. Eu tentava respirar mas não conseguia, sabia que desta vez não haveria retorno a senzala, meu fim estava próximo.  Então quando eu ouvi o sibilar do chicote no ar, gritei num último esforço. SENHOR, TENDE PIEDADE DE NÓS.
Adão Jorge dos Santos
Enviado por Adão Jorge dos Santos em 29/01/2006
Código do texto: T105742
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Sobre o autor
Adão Jorge dos Santos
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 56 anos
70 textos (8136 leituras)
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Adão Jorge dos Santos