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UMA ESTÓRIA QUALQUER

Ele sabia que tinha pouco tempo. Mas mesmo assim não perdia o controle sobre si. Sabia que daria tempo e que conseguiria sair daquela situação...

Tempo para quê? Que situação era essa? O escritor tinha começado a estória depois de muito ter pensado, mas as suas dúvidas continuavam. O que ele queria escrever? Um suspense, uma aventura ou quem sabe um drama? Saiu de frente do computador e foi até cozinha para tomar um comprimido de dipirona para amenizar a sua dor de cabeça. Quem sabe seja ela a culpada pela sua falta de criatividade. Depois de ingerir o comprimido de gosto amargo, ele foi até o lado de fora de sua casa. Foi ver o céu, quem sabe a lua estivesse lá e poderia lhe dar algumas idéias. Mas não era poesia o que ele queria. Queria mesmo era uma estória surpreendente e cheia de reviravoltas. Nada no céu que chamasse a sua atenção. Antes de voltar ouviu um vozerio no vizinho. Devia ser a filha discutindo com o pai para que deixasse ela sair naquela noite. Afinal era sábado. E o escritor lembrou o quanto precisava convencer os seus pais para sair aos sábados. Voltou para o interior da casa.
Já sentado de frente para o computador, resolveu escrever o que viesse à cabeça dolorida.

Tudo estava sob controle até que ouviu vozes (e não é que o vozerio me inspirou, pensou o escritor) vindo lá de fora. Quem será? O tempo dele estava se esgotando e a qualquer momento...

A qualquer momento? O que poderia acontecer a qualquer momento? Uma bomba poderia explodir? Um segredo muito bem guardado seria revelado? Ou quem sabe a morte do único personagem, sem contar o vozerio que não tinha dono. O escritor estava ficando tenso como a sua personagem. Sem idéias, a única coisa que conseguia era deixar interrogações, em cinco linhas escreveu pouco, mas também escreveu muito, pois tinha deixado muita coisa no ar para ser respondida. A noite estava quente, ligou então o ventilador no máximo e voltou sua atenção à sua estória.

... e a qualquer momento o helicóptero poderia aparecer. E ele ainda não tinha armado a bomba. O burburinho lá fora tinha aumentado. Seria a polícia? Ou quem sabe terroristas armados até os dentes. Ele era especialista em bombas e pela primeira vez começou a sentir uma tensão que lhe provocava uma confusão na hora de armar os fios. Respirou fundo e: conseguiu. A bomba explodiria aquele andar inteiro ou quem sabe até mais em questão de dez minutos. Foi até a janela e não viu nenhum helicóptero se aproximando. De repente...

Nunca um “de repente” lhe trouxe tanta raiva. Então por que o escreveu? Porque “de repente” é a palavra mágica do suspense, do inesperado. Tudo pode acontecer depois de escrever essas duas palavras. Só que agora ele não tinha a mínima idéia de como continuar. Releu o que tinha escrito e se viu surpreso ao escrever certos clichês como “armados até os dentes”, ele sabia que era superior àquilo, mas naquele momento qualquer engodo literário era bem vindo. Sentiu sede. Foi até a cozinha e bebeu um copo de água gelada. Antes de voltar passou pela varanda e no céu viu um objeto curioso. Era vermelho, e piscava sem parar. Um OVNI? Que absurdo! Devia ser algum balão. A mente inquieta do escritor não se conteve e escreveu:

De repente recebeu um sinal em seu aparelho de comunicação. Devia sair dali, seres estranhos tinham tomado o prédio.

O escritor teve um acesso de loucura e estava se rendendo a qualquer coisa que visse. A estória ainda estava fraca, mas o que ele acabara de escrever arruinava com tudo. Pressionou o Delete até voltar no fatídico De repente. Ele nem tinha percebido, mas a sua dor de cabeça estava mais branda agora. Resolveu então não sair mais dali a não ser que seja pra cama. O que o escritor não esperava era uma visita inesperada. Tomou um susto quando a campainha tocou. Foi sem pressa para atender.

_ Marisa?
_ Escuta aqui Carlos, se você acha que eu vou deixar barato, você está muito enganado.
_ Do que você ta falando?
_ Não se faça de disperso. Eu quero o dinheiro e agora. – disse a mulher entrando na casa sem ter sido convidada.
_ Eu não tenho dinheiro. E como você entra na casa dos outros desse jeito?
_ Por acaso tenho que pedir licença na casa em que morei por quinze anos?
_ Você está certa, você morou nessa casa, agora não mora mais. Fico feliz quando usa a língua de maneira certa. – ironizou o escritor.
_ Não me venha com esse papo lingüístico. Pelo visto você estava escrevendo, até quando vai ficar com essa idéia de ganhar dinheiro com as letras?
_ Não vamos começar essa discussão de novo. E só pra te acabar eu vou pegar o dinheiro que você tanto quer. – esbravejou o homem com jeito grosso.
_ Sabe que esse dinheiro não é pra mim. – disse a mulher numa ultima tentativa antes que ele saísse.
_ Ta aqui o seu dinheiro e vê se não me volte mais.
_ Da onde você tirou tanto dinheiro?
_ É uma coletânea de contos que eu publiquei e me rendeu alguns trocados. – disse o escritor se gabando.
_ Como você conseguiu?
_ Escrevendo oras. Mostrei pro meu amigo editor e ele aceitou publicar e vendeu algumas centenas de cópias.
_ Agora fiquei sem chão. Acabei de falar mal desse seu sonho e vejo que ele se tornou real, nem sei como me desculpar.
_ Se você comprar um já é uma forma de agradecer. – disse ele soltando um sorriso.
_ É claro que eu compro. Quero autógrafo heim!
_ É claro.

A conversa entre marido e ex-mulher se prolongou pra mesa da cozinha com direito a café e uma “brincadeirinha” na mesa da cozinha em memória aos bons tempos, se é que me entendem. A ex-mulher foi embora. E Carlos, o escritor, pôde voltar ao que estava fazendo.

De repente a sua parceira de trabalho apareceu dizendo que o prédio estava cercado e que deviam achar um meio alternativo para fugir. A sua parceira que se chama Marina deu a idéia de irem para fora do prédio e tentarem descer para o andar de baixo, afinal a polícia estava toda concentrada ali naquele andar onde estavam. Daniel (finalmente meu personagem tem um nome, disse Carlos sozinho.) acatou a idéia de Marina que só sugeriu isso porque enxergou aqueles elevadores que os funcionários da limpeza usam para limpar janelas. Brilhante idéia elogiou Daniel. Os dois não tiveram muito trabalho para descer. Quando entraram pela janela defrontaram com...

Defrontaram com? Boa pergunta é o que pensou Carlos. Pelo menos a estória estava ganhando corpo, já tinha personagens e nomes para eles. Mas a estória não tinha terminado. Carlos se espreguiçou, o sono já dava seus primeiros sinais, mas ele queria continuar a escrever. Estava cansado de começar e não terminar. Ele quase cedeu quando viu sua cama esperando-lhe toda feliz para abrigar o seu corpo. O flerte entre escritor e cama terminou quando o telefone começou a tocar. Que raios! Gritou ele. Quem será numa hora dessa?

_ Alô – disse ele com voz de poucos amigos.
_ Carlos? Sou eu, o Felipe!
_ Felipe?
_ Sim, se esqueceu de mim?
_ Ah Felipe, claro que sim, quer dizer claro que não esqueci de você. – disse Carlos que mentiu. Não se lembrava de nenhum Felipe.
_ Que bom que lembrou. Consegui seu telefone com o Marcos.
_ Ah o Marcos, eu juro que mato ele. – disse Carlos meio rápido.
_ Como disse?
_ Nada não. Grande Marcos, amigão ele. – disse Carlos furioso por Marcos ter dado o seu telefone para o ilustre desconhecido.
_ Encontrei com o Marcos semana passada e ele me disse que ainda conversa com você, achei legal que ainda mantém contato com as caras da faculdade.
_ É sempre bom continuar o contato com pelo menos um, mesmo assim ainda conseguirá rever os outros. – comentou Carlos que começava a lembrar do tal Felipe, talvez seja um estudante de uma turma mais nova que ele.
_ Cara, eu te liguei pra saber se você ainda fala com a Natália.
_ Natália?
_ Sim, a Natália, da sua turma. – relembrou Felipe.
_ Ah claro a Natália. – as lembranças de Carlos vieram à tona. Ele gostava de Natália que gostava de Felipe que não estava dando atenção pra ela e isso acabou com as pretensões de Carlos. No fim ninguém ficou com ninguém, mas dizem que Natália e Felipe ficaram depois que acabou a faculdade.
_ Então, você sabe por onde ela anda?
_ Sinto muito Felipe, mas eu não sei. Foi bom falar com você, tchau! – e desligou na cara dele e anotou num papel de anotações: Trocar o número de telefone! Urgente!

Carlos não se conformava com aquilo. Um cara que ele nem lembrava liga pra ele perguntando se ainda fala com a menina que agora é uma mulher, provavelmente casada. Era demais! Provavelmente esse Felipe devia estar no primeiro ano quando a turma de Carlos estava se formando, deve estar começando os trinta anos agora, pensou Carlos que voltou suas atenções para o texto.

... defrontaram com um policial. Mas não era um simples policial, era um investigador da Central de Inteligência. Pelo visto a minha idéia foi parecida com a de vocês, disse o investigador. Cala a boca seu merda, disse Marina. Quem é você? Perguntou Daniel. Como não me conhecem, eu sou Felipe, o principal investigador desse caso e estou aqui para prender vocês e amanhã acordar e me ver nas capas de jornais. Mas vocês podem escapar, desde que me contem quem está por detrás de tudo isso. Nunca vamos contar! Esbravejou Marina. Então não me resta escolha, entreguem-se.
A estória começava a ficar interessante e Carlos estava feliz, pois as idéias fluíam, claro que as idéias foram induzidas: a visita de Marisa, o telefonema de Felipe, o que mais poderia colaborar com as suas idéias? Não demorou muito para que ajuda aparecesse. Carlos viu a barra de tarefas do computador piscar. Era uma mensagem instantânea do seu amigo Michel. Ele clicou na barra e a tela aumentou.

_ Tudo bom Carlos?
_ Tudo sim e você?
_ Tranqüilo! Descobri algo muito interessante.
_ O quê?
_ Sabe aquele italiano, o Paolo, então o cara ta chamando uns escritores pra fazer um livro com ele.
_ Sério? Que bacana, esse escritor tem um super nome e se eu conseguir me associar a ele as coisas vão melhorar pro meu lado.
_ Ele vai almoçar num restaurante aqui perto e ele me chamou e disse que eu podia chamar alguém que eu conhecesse e que escrevesse é claro, e não poderia deixar de te chamar.
_ Pô meu, obrigadão, será que eu poderia levar a Bruna?
_ A sua nova namorada?
_ É! Mais ou menos. – disse Carlos sem graça.
_ Acho que sim, importante é que você apareça amanhã ao meio dia no Mineirinho’s.
_ Estarei lá sem falta. Agora vou sair, tenho que terminar uma estória. Abraço. – digitou Carlos já colocando o programa em modo “offline”.

Carlos fechou a janela e aumentou a tela do programa de texto e voltou a escrever a sua estória.

Quem está no comando é o Miguel – declarou Daniel. Marina ficou furiosa com aquela atitude. Sabia que era ele, agora me diga onde ele está? Ai você já quer demais, agora nos deixe fugir! – pediu Marina. Já podem ir, estão esperando o quê, não quero nada com serviçais, o que me importa é o cabeça.
Por que você entregou? – indagou Marina. Você acha que eu entregaria o Miguel, na verdade o comando está com a Paola. Ela é a cabeça. – disse Daniel. E por que não me contou? – Marina tinha ficado brava mais uma vez. Se eu contasse o nome que você achava que era errado, o Felipe ia desconfiar. – disse Daniel. Esperto você heim!
No dia seguinte a matéria sobre a destruição da sala em que estavam os documentos que entregariam o governador Carlos Lemos (que ousadia, colocar o próprio nome na estória – pensou Carlos) saiu em todos os jornais e um deles era lido por Daniel, Marina tomava um chá. Os dois estavam num pequeno Café perto do prédio onde estavam na noite passada. De repente apareceu um rapaz diante da mesa deles.
_ O que deseja? – perguntou Daniel.
_ Dani, esse é o Bruno, meu namorado. – disse Marina.
_ Mas você não era solteira? – estranhou Daniel.
_ Sim eu era. Não sou mais. – disse Marina.
_ Pensei que entre nós dois havia algo.
_ Tem razão, mas da última vez que nos vimos percebi que tem olhado intensamente para a Adriana.

Adriana? De onde apareceu aquele nome? Carlos não sabia. Salvou o documento e preferiu deixar para amanhã. Quem sabe um sonho aumente suas idéias.

FIM

02/02/06
Miguel Rodrigues
Enviado por Miguel Rodrigues em 03/02/2006
Código do texto: T107523
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Miguel Rodrigues
Barueri - São Paulo - Brasil, 33 anos
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Miguel Rodrigues