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Encontro

19:50hs. É hoje, mais um daqueles velhos encontros entre amigas de um tempo perdido no passado, unidas apenas pela vontade de saber da vida uma da outra. Quem sabe uma pode estar sofrendo e assim as outras possam se sentir acalentadas por não terem uma vida tão ruim. Mas, se uma outra disser que está feliz, nem sei como as outras podem reagir. Por mais que goste de todas elas, não saberia não invejar uma felicidade que não me pertence. (Não sou má pessoa). Gosto de chegar atrasada à  essas reuniões. Não suporto aquele silêncio de confidência que fica quando se está esperando as outras.  É aquela situação incômoda de sentar nas cadeiras do teatro sem saber se se pode falar ou se já é hora de calar, enquanto o espetáculo não começa. Surgem assuntos banais como o preço do açúcar, ops, do adoçante. Todas nós estamos de dieta. Ainda consigo ter o corpo da Luana Piovani, diz a Marina, em cima dos um metro e meio e sessenta e sete quilos. Todas sabíamos que Marina levantava na surdina da noite para comer algum chocolate estrategicamente guardado no fundo de uma gaveta qualquer do quarto de empregada. Imagino-a como mariposa revoando em volta da  lâmpada fingindo não se importar com a luz, mas apenas num trabalho incessante de rondar, rondar, rondar a lâmpada e de quando em quando, quando quase ninguém está olhando, voa para perto e queima suas asas. Deve sentir uma dor tremenda, porque voa meio que para longe, mas sempre, sempre volta a rondar e rondar a lâmpada. É assim. Marina sempre a voar em volta do seu desejo, sem poder assumi-lo, sem poder aceitar como próprio desejo.  Tenho pena da Marina. Fez um bom casamento com o Nelson, pelo menos é o que aparenta. Ele sempre preocupado com as contas, com os filhos, não esquece datas e de quando em quando ela aparece com alguma bijuteria bonita dizendo que foi o “nenê” quem deu, sem motivo aparente ou necessidade de reconciliação. O único pecado do Nelson era chamar Marina de “Fofolete”, remetendo o pensamento àquelas pequenas bonecas da infância de carinha bonita e rechonchuda. Marina não gosta, mas gostava quando se conheceram. Fofolete e Nenê. Fico imaginando os dois na cama e não consigo segurar o riso. Mariana é uma sofredora. Seria estímulo para qualquer escritor melodramático. Mariana aparenta mais idade do que tem. É o sofrimento, ela diz, com aquele sorriso amarelo precisando de uma boa limpeza de tártaro. Mariana não é, como nunca foi, bonita. Conheceu o Jorge numa festa de casamento de algum parente longínquo. Mariana não é bonita, coitada, e ao conhecer o Jorge se sentiu mais feia, mais sem graça. Jorge é um tipão. Gostoso mesmo. Daqueles que a gente olha e se remexe na cadeira pra controlar a excitação. Mas é um inútil. Não trabalha. Gosta de futebol e cerveja. A pobre da Mariana, apaixonada, não viu defeito até que o primeiro filho nasceu. As contas triplicaram, as tarefas quadruplicaram e o Jorge gritando gol na sala derrubando a latinha de cerveja no sofá e metade da pipoca no chão. Uma vez, Mariana disse “não agüento mais, vou pedir a separação”. Nós, suas amigas, ficamos apreensivas. O gostosão estaria livre? Alguma de nós poderia colocá-lo no caminho certo. Mulher é bicho engraçado. Adora um desafio impossível. Sempre acha que consegue arrumar as coisas, mudar os homens, por exemplo. Tem aquelas que adoram um cafajeste, daqueles que batem e tudo. Sei lá de onde tiram que ela e só ela pode mudar o sujeito. É, já fui assim também, mas o caso da Mariana é complicado. Só pode ser. Não pediu a separação, pelo contrário, apareceu, dois meses depois, se dizendo grávida novamente. Vai entender? Onde será que coloquei aquele brinco de pedrinhas vermelhas? Tenho certeza de que guardei aqui, mas não está.  Mariela é a mais bonita de nós. Não nego. A mulher é bonita. Com tudo no lugar. Bunda que fica bem em vestido ou calça. Peitos do tamanho exato nem grandes nem pequenos. Perfeitos. Ainda acho que ela colocou silicone, não para aumentar, mas para levantar. Impossível aqueles peitos empinados serem naturais. Cintura de formiga. Toda perfeitinha. Até hoje não sei como a aceitamos no nosso meio. Talvez pela tristeza nos olhos. É, bem pode ser isso. Mariela é casada pela segunda vez. O primeiro marido não agüentava com o ciúme e descontava toda sua ira mal administrada na cara de Mariela, que nem de olhos roxos perdia sua beleza. Alberto, o segundo marido, é mais pacífico, se é que se pode chamar um marido, que vigia todos os seus passos, de pacífico. Na ultima reunião tivemos de falar ao celular, todas nós, com o Alberto, para ele aceitar que não estávamos fazendo uma orgia com quinze garotos de programa. A situação ficou tão constrangedora que logo após Mariela desligar o celular, nos despedimos dando por terminado o encontro. Aí estão vocês. Poxa, não lembro de ter colocado vocês ai. Venham, venham que já estou atrasada demais. Ganhei esses brincos do Marcelo uma semana depois de nos conhecermos.  Marcelo, sim, era um homem de verdade. Educado, inteligente, trabalhador, honesto. Nos tornamos amigos, pelo menos é o que acho que fomos durante o período em que não fizemos sexo. Era tão bom falar com ele ao telefone. Horas e horas e sempre havia assunto que emendava em outro assunto e mais outro e já sabíamos tudo um do outro. Na semana seguinte ao nosso primeiro contato, ele foi me visitar no trabalho e me deu os brincos acompanhados de um ramalhete de flores e um cartão que ainda tenho guardado em algum lugar. Foram três semanas maravilhosas de muita conversa e paquera. Eu estava completamente apaixonada pelo Marcelo. Era tudo o que eu queria. Por fim, naquele sábado, depois do cinema, depois de jantar num charmoso restaurante, depois de dançar músicas lentas bem abraçadinhos, depois dos primeiros e maravilhosos beijos, depois de pagar a conta, era inevitável que fossemos para o motel. Fomos e nos amamos. Eu o amei como louca. Entreguei-me como a mais depravada das depravadas. Homem gosta de mulher depravada na cama. Fiz de tudo para agradar ao Marcelo. Ele ficou doido. Conseguiu três ereções num período de quatro horas. Seus olhos brilhavam e cobiçavam. Dizia que eu era demais até cansarmos um nos braços do outro. Que noite foi aquela? Com certeza o melhor sexo da minha vida.  Marcelo me deixou em casa quase clareando o dia. Eu estava exausta e extasiada. Dormi o necessário para me plantar ao lado do telefone. Não sei o que pode ter acontecido. Talvez algum problema nas linhas de telecomunicação ou talvez Marcelo estivesse tão cansado que não conseguiu ligar naquele dia nem nos três dias seguintes, nem nunca mais.  Me senti Marina a rondar o telefone como mariposa a rondar a lâmpada. Me senti Mariana encontrando uma boa desculpa para não despachar o Marcelo de vez da minha vida. Me senti Mariela com os olhos tristes por saber que Marcelo só queria meu corpo. Me senti Maria. Eu mesma. Tão acostumada com a repetição dos fatos e mesmo assim tentando acreditar que existe um homem que, no dia seguinte, vai me mandar flores.
Paula Cury
Enviado por Paula Cury em 05/02/2006
Código do texto: T108209

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Sobre a autora
Paula Cury
São Paulo - São Paulo - Brasil, 47 anos
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Paula Cury