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Uma tarde de domingo

   Era por volta de dez da manhã quando Mônica acordou naquele domingo. Olhou em volta do seu quarto  e deu vontade de voltar a dormir. Estava o típico guarto de uma garota que fora obrigada pelo destino a trabalhar muito cedo. Roupas pelo chão, a porta do roupeiro aberta, sinto, calcinha, bolsas, sandálias, compunham o chão daquele quarto. Ela repirou fundo. Precisava dar um jeito nauilo antes que ratos e baratas também fossem habitar seu pequeno lar.
   Mônica morava sozinha desde que um ônibus atropelou sua mãe. Ela vendera a antiga casa e comprara esse apartamento de dois cômodos. Ela não mudara só de casa, ela mudara de cidade. Queria tudo esquecer. Usou o resto do dinheiro por um tempo, mas, antes que seu dinheiro acabasse, decidiu que estava na hora de trabalhar.
   Voltemos aquele domingo. Ela preparou alguma coisa pra comer e foi abrir as janelas pra entrar um ar. Estava um dia lindo, as pessoas andavam nas ruas que ela avistava, todos pareciam felizes. Deciciu que ia à praia. "Não é justo que eu fique presa nesse apartamento trabalhando depois de trabalhar a semana inteira, preciso descansar, nada mais justo".
   Dali a meia-hora (Foi só o tempo de comer alguma coisa e tomar um banho), ela estava andando. A praia não ficava longe dali, era meia-hora andando. Mônica ia olhando as coisas, as pessoas, os prédios, os cachorros, as barraquinhas de doce. O que ela pensava, acho que nem ela sabia. Era uma menina de vinte e um anos, sozinha.
   Os amigos e os parentes quiseram-na ajudar, mas ela se negou. Achava que havia um significado pra tudo  que havia acontencido, e ela queria descobrir. Ia se virando como podia. Sempre calada, sempre distante, sem sentir, viver ou sofrer. Ela era apenas Mônica Andrade e só.
   Já era tarde daquele domingo. Mônica estava olhando a praia, não gostumava tomar banho por que não gostava muito, mas gostava de ficar observando o mar, a areia, as pessoas felizes ali, aquilo só podia mesmo ser coisa de um Deus supremo e amável. E tal Deus não teria lhe tirado a mãe tão boa, tão sua, por uma razão injusta. Havia de haver um motivo, um bom motivo.
   Mas aquela tarde de domingo prometera pra ela uma surpresa. Ela que desde sei lá quando adorava observar o jeito das pessoas, as diferenças existentes, tudo. Estava observando aquelas pessoas quando um rosto familiar se destacou entre os demais. O coração de Mônica bateu descompassado e forte. Parecia que ia desmaiar.
- Minha mãe!
   Mônica viu perfeitamente, era a sua mãe, a mãe que ela julgara morta, por quem tinha chorado tantas noites, a mãe tão amada, havia entregado a alma da mãe a  Deus. Jamais pediu para que ela voltasse, queria apenas que ela ficasse bem onde estivesse. Sua mãe estava ali na sua frente. O ue pensar? O que fazer?
   Ela levantou-se e romou em direção a mãe. A mãe, agora de costas, não a viu se aproximando.
- Sílvia?
   A mulher pareceu assustada com o chamado por aquele nome. Parecia conhecer a voz. Ela jamais confuderia essa voz com qualquer uma outra. Virou-se para se certificar de quem era.
- Mônica?
- Você está morta, mãe. Mônica falou sem ação.
- Eu precisava ir embora, não podia mais ficar, filha.
- Não podia ficar? E preferiu me deixar sozinha, sem rumo, sem ninguém?
- Teu pai disse que ficaria com você.
- Meu pai? Eu nem ao menos sei quem é o meu pai.
- Precisa entender, filha.
- Entender? Entender a mãe por quem chorei esses messes todos? Você só pode estar louca.
- Teu pai te queria pra ele. Ameaçou contar pra polícia sobre aquele roubo, você sabe. Eu não podia te trazer comigo.
   Mônica riu ironicamente. Não podia acreditar no que estava ouvindo. Amava a mãe. Dedicou todo o amor que podia sentir aquela mãe e mãe lhe dizia que foi embora mesmo, que precisava. Precisava? Aquela história do pai só podia ser mentira. Sempre soube que o pai lhe rejeitara e a mãe nunca quis lhe contar nem o nome do cara que pulou fora quando a mãe engravidou.
- Você me dá nojo, mãe. Preferia mil vezes que tivesse morrido. Sabia que ligaram pra mim?
- Era uma amiga minha. Estava me ajudando. Mandei ela te dizer que um ônibus havia me atropelado. Eu tenho tanta vergonha do que fiz...
   Sílvia saiu correndo. Estava desconcertada. Mônica ficou sem ação. Viu sua mãe se afastando, se afastando. O coração de Mônica voltou a acelerar. Sua mãe ia correndo pra rua, um ônibus se aproximava. Eles colidiram. Mônica viu o corpo da mãe voar. Correu até ela. Em vão. Sua mãe estava morta. Dessa vez de verdade. Dessa vez pra sempre.
Clara Belmiro
Enviado por Clara Belmiro em 15/02/2006
Código do texto: T112358
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Sobre a autora
Clara Belmiro
Paulo Jacinto - Alagoas - Brasil, 29 anos
30 textos (2945 leituras)
1 e-livros (158 leituras)
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Clara Belmiro