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o Mito

                                              O MITO

Não era um cidadão grego, muito menos um presente desses, mas parecia ter
saído do mundo grego, do mundo do pensamento grego, do mundo criador da
razão e inventor do mito. Era o objeto inventado pela mitologia, uma
mitologia popular, da periferia, do gueto, que por assim fazer, existia por
ele.
Temos uma grande herança legada pela cultura greco-romana. Sua luxúria, seus enganos e acertos, sua intelectualidade, seus exageros e suas idéias e
formas, sua razão e sua mitologia. Desde a infância somos doutrinados e
envolvidos pelas narrativas fantasiosas que nos remetem naquele momento ao
tempo real da ação fantasia, criando uma percepção psicológica que irá nos
acompanhar para sempre, mesmo quando engolidas pela idade da razão, quando já não nos apercebemos de seu aspecto extraordinário.
Reserva-se aqui, a palavra mito, para nomear o argumento ideal, bem feito,
bem produzido, de uma história bem tramada por seu criador, o próprio ser
humano, pingente da sociedade periférica e do gueto onde a ação se
desenrola.
Este homem, que a sociedade houvera transformado em mito, estava sentado
posto a analisar sua vida, sonhos, sua trajetória pessoal. Sua lucidez, seus
argumentos, seu entendimento sobre as coisas em si, jamais se apercebeu em
que tipo de produto havia se transformado e nem em como se dera a invenção do que ele representava, as forças que o criaram. Não tinha formação intelectual para tal análise e entendimento.
Sua caminhada não havia sido fácil, precisou ter força, matar um leão por
dia, vender o almoço para comprar o jantar. Sua autoridade não era um fato
natural, fora uma conquista de guerra que encontra eco em vários mitos da
História Universal, Senaqueribe, Assurbanipal, Nabucodonosor, Dário,
Alexandre Magno, Aníbal, Júlio César, Napoleão, para citar apenas o que se
pode contar nos dedos. Tanto quanto a história nos deixa perceber, nem
sempre foram justas as suas ações, e compará-lo a grandes líderes e
conquistadores será tornar iguais todas as causas. Talvez aqui, fosse melhor
o exemplo de Psístrato, Hiparco e Hípias os tiranos gregos.
A coerção e a força foram seus maiores cabos eleitorais, este tipo de
ascensão política não se constitui aqui como novidade. A velha Guarda
Nacional, que deu tanto poder aos coronéis que no sertão se sucedem
cosanguineamente até os dias atuais, amparados pelo poder da bala, do
dinheiro e da produção da ignorância.
Imortalizado pelos livros e também pelo cinema a periferia também produziu
um grande mito, que falava através de sua lurdinha, uma metralhadora que
inibia ações contrárias à vontade do homem- da- capa –preta, mais conhecido como Tenório Cavalcante.
Se para ele próprio, suas ações foram de conquista, para seus eleitores, o
mito que ele era tinha a autoridade de um fato natural.
Os fatos dançavam em câmera lenta em sua mente. Lembrava-se da casa pobre e das brincadeiras no fundo do quintal, dos amigos de infância, das
estripulias quando da volta da escolinha municipal, seus tempos de policial,
as rondas, os parceiros, o início das atividades de executor. Lembrava-se,
como se fosse um castigo, um martírio auto-imposto de cada morte que havia
causado, um sentimento que não conseguia definir, uma marca sem dor, como de uma cicatriz. Uma frase especificamente lhe saltava ao pensamento, como que uma sirene ligada em alerta: “Toda ação tem uma conseqüência”. Na verdade não sabia bem onde encaixar este slogan mental, era hoje, um deputado, mas ainda um matador, pois não se subtrai de um título como esse, a não ser pelo esquecimento espalhado na linha do tempo ou pela imposição de um novo ser, um novo mito.  O mito político comum e aprovado na periferia é o do que rouba, mas faz. O cidadão comum não vive de discurso, não se alimenta de palavras, estas o alimentam na religião, quer algo palpável, quer ver e tocar quer totens  modernos (para quem sabe, louvar o mito).
Foi assim que sua trajetória de vida mudou, foi assim que construiu sua
carreira política, dono de um mandato por um pequeno partido e sem expressão política que o promovesse fora de sua comunidade, desenvolvia uma política assistencialista distribuindo alimentos, material de construção, matando bandidos e tentando transformar o inferno da cidade dos homens em “A Cidade e Deus “, era a personificação da divindade, dual, nele estava o bem e o mal.
Já há algum tempo que vinha incomodando-se com suas atitudes e com o que
acontecia a sua volta. Seus sentidos eram naquele momento um turbilhão de
imagens e idéias, gestos e olhares. Não era hora e local ideal para este
tipo de reflexão. Mas, ali estava nascendo um novo ser, através da mudança
que ora se realizava. Estava decidido a compensar, transformando tudo o que
produzira em verdade. Racionalizaria suas ações, seu pensamento e atitudes
seriam agora convertidos na produção de uma política voltada para as
minorias que deveria em seu mandato representar. Queria trilhar o caminho da
ética e da virtude, andara folheando um livro, que lhe fora ofertado por um
velho morador do bairro, um livro antigo, destes que se encontra nos sebos,
seu título era “Ética a Nicômaco” de Aristóteles. Logo nas primeiras linhas
encontrara motivos para mudar, influenciou-o tanto o texto que o decorara e
relembrava-o agora, dizia o texto: “[1094 a] Toda arte e toda investigação,
bem como toda ação e toda escolha, visam um bem qualquer, e por isso foi
dito, não sem razão, que o bem é aquilo a que as coisas tendem...”, o último
parágrafo desta mesma primeira página deu-lhe o sopro final, dizia: “Se
existe, então, para as coisas que faremos, algum fim que desejamos por si
mesmo e tudo o mais é desejado por causa dele; e se nem toda coisa
escolhemos visando à outra (porque se fosse assim, o processo se repetiria
até o infinito, e inútil e vazio seria o nosso desejar), evidentemente tal
fim deve ser o bem, ou melhor, o sumo bem” . Não precisaria mais dar
continuidade a leitura estava ali, iluminado e esclarecido tudo o que não
pode ou soube enxergar a vida toda:
- Mas, como transformar a idéia em realidade, se a sua atuação política era
limitada?
- Por partes, um degrau após o outro. Aconselhara-o este mesmo velho
morador.
Não tinha ainda aqui adquirido noções filosóficas suficientes, que lhe
pudessem ilustrar o caminho, mas já havia adquirido a vontade de produzir e
causar o bem, o supremo bem. Seria assim feliz, veria as pessoas a sua volta
felizes. Afinal é para isso que nascemos, e é isso que buscamos a
felicidade. Estava decidido a partir dali seria outro homem, criaria,
reuniria e incorporar-se-ia a grupos que pudessem produzir a melhora da vida
do ser humano.
Levantou-se, pegou um lenço e como que num ritual de iniciação e de
purificação, limpou as mãos, limpou a faca e guardou-a cuidadosamente no
bolso da calça em estilo militar que usava, olhou fixamente para o cadáver
sobre o qual esteve sentado, fechou-lhe os olhos e saiu com a certeza de que produziria uma melhora para o mundo e também para si próprio, embora
estivesse nele contida uma nítida impressão de que fizera a coisa certa,
afinal matara um estuprador.

Sylvio Neto
Enviado por Sylvio Neto em 14/04/2005
Código do texto: T11278
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Sobre o autor
Sylvio Neto
Belford Roxo - Rio de Janeiro - Brasil, 53 anos
73 textos (11987 leituras)
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Sylvio Neto