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carta para um dia de maio

Vou para casa. Estar com o meu amor e ouvir palavras sedosas ao meu ouvido. Vou esperar o meu amor, e dele, ouvir palavras sedosas.
Senti-me roubado. Você leu minhas cartas, e você leu para você, e tanto que eu queria ouvir sua voz. E assim me senti roubado. Levaste mais coisas do que eu. E assim saí em desvantagem.

Meu pouco argumento revela mais impurezas.

Estou em casa. Vou estar com o meu amor e ouvir as suas palavras sedosas que lapidaras para mim, ao meu ouvido: palavras sedosas.
E ainda assim, eu, sou o lesado.
Tolos os que não me querem em seus braços, Os que querem não me largariam. Nem todos gostam de mim. Oh! Salvem-me! Estou salvo. Tenho um amor que me fala palavras sedosas ao ouvido.

E lembrei-me de Adorno: “(...) No deperecimento da experiência, um fato possui uma considerável responsabilidade: que as coisas, sob a lei de sua pura funcionalidade, adquirem uma forma que restringe o trato delas a um mero manejo, sem tolerar um só excedente – seja em termos de liberdade de comportamento, seja de independência da coisa – que subsista como núcleo da experiência porque não é consumido pelo instante da ação.”
E me sinto essa coisa: coisa sem instantaneidade.
Será eu, meia substância? Ou estar sempre em meia substância por tentar não mostrar-se por completo como sou?
E ocupo todos os espaços quando estou em casa. Esperando o meu amor. E quero ouvir as palavras sedosas que ele tem para meus ouvidos.
Quero ser egocêntrico e estar na tragédia do egoísmo. E como fui tolo em deixar ser roubado. E só o que me interessava nas cartas seria a reprodução dos escritos por tua voz. E fui lesado porque leste para ti.
É porque um fato, como dizia Adorno, possui uma considerável responsabilidade: a pura funcionalidade sem tolerar um só excedente.
O meu excedente já transcende a coisa que sou. E o que é um só excedente? Que transcende a coisa que sou?

Mas, é essa não-instantaneidade.
O imediatismo de mim corrói o tempo. E o que é o tempo senão atemporal. É paradoxal isso: essa coisa da não-temporalidade. Do que mesmo?
O meu imediatismo é contra a toda forma de tempo. E existem tantas formas? Se existe o tempo atemporal, por que não tantas formas dele mesmo. Do que mesmo?
Meu imediatismo quer que eu esteja em casa. E espera o meu amor com suas palavras sedosas.
O meu imediatismo espera? E por que não? Ele corrói o tempo, é contra a toda forma de tempo e, quer como todo imediatismo, que eu fique em casa.

Meu amor ainda não chegou.
O que é o AINDA? A-IN-DA. Dá pra brincar sério com a palavra ainda:
A “IN” DA INstantaneidade da coisa que sou subsiste como núcleo.
Será que AINDA me sinto roubado?
Acho que não, se sou tão imediatista assim.
É essa mania de estar querendo congelar o tempo. Capturá-lo como forma de afirmar que “é” o que já “foi”. O tempo é imediatista, não eu. Nem sei porque que digo que sou.
Maio se parece com ainda. Maio. Ainda. Não se parecem? Pois essa carta que escrevo ainda é para um dia de maio. Por que um dia de maio? Por que não janeiro – que parece que cai como se caísse junto a água de uma queda d’água?
Sabe o que é? É que ainda não é maio, é isso. O ainda sempre vai existir porque é uma das formas de tempo. O imediatista, lembra?

E o meu amor? Ainda não chegou. E suas palavras sedosas também não. E elas só podem chegar junto a ele. E as cartas? Para que servem?
Se for assim, me sentirei roubado novamente.
Quero a voz do meu amor junto aos escritos. Junto às palavras sedosas que hei de ouvir quando chegar.

Quando também é uma das formas de tempo.
Mas quando é mais evasivo que  ainda. E quando é também imprevisível e incerto. Ainda, não. É certo, e demarca a possibilidade.
Eu mandaria esta carta para mim?
Sabe a melhor parte do processo de correspondência? É quando você manda. Sela a carta, sabe, e endereça a alguém? Essa é a melhor parte e não falemos das outras partes. Não é relevante.

Quando meu amor chegar quero ler esta carta para os seus ouvidos. Por que disse quando? Se ele é imprevisível e incerto. Meu amor está por chegar, todos sabemos.
Não vou sair de casa. Cartas me deixam tão nostálgico. Mas essa é ainda para um dia de maio. Mas por que para um dia de maio? Poderia ser, ainda, para um dia de novembro, não poderia?
Sim, poderia. Mas novembro é depois de maio. E lembremos que depois também é uma das formas de tempo. Até agora, ao todo, já são três.
E por que se prender às formas?
Pois é, e por que se prender às formas?
Deixando para novembro estaria deixando de ser egocêntrico e egoísta. E não quero isso.
Quero ouvir as sedosas palavras lapidadas pelo meu amor. E ainda não chegara, o meu amor. Por que não me liga?
Não.
Telefone é instrumento que transcende o ser.
Por que uma metáfora meia substância? Seja você por completo com sua intelectualidade arrogante!
Arrogante, eu?
Todo arrogante é egocêntrico, e estou egocêntrico agora e, mergulhado no lago impuro do egoísmo desde que quis, ainda que parecesse sentir-se lesado por tão pouca ação instantânea.
Mas,
não é a não-instantaneidade?
Existe, então aí, um resquício de instantâneo?
E o que é então, essa coisa que és?

Eu mandaria esta carta para mim? Para que? Para descobrires que coisa que és?
Ler você mesmo, é isso. Quer ouvir palavras sedosas. Mas não vai ser desta carta que ouvirás as sedosas palavras.
As palavras sedosas virão a soar quando o teu amor chegar. Ainda que ele não chegue, terás que esperar, lesado pelo tempo, roubado pelo imediatismo do teu querer; e com menos coisas que achara ter ficado quando se sentiu roubado.
Quando é incerto. E isso já foi dito.
Eu fui roubado!
E o quanto é mesquinha essa sua atitude. E o quanto é pouco se comparado a todas as outras cartas não escritas. Cartas não escritas? Nunca escrevi nenhuma outra carta. E não vou escrever nenhuma outra mais. Mais escritos só perfurariam meu ego inflamável.
Eu sou inflamável. E o meu amor não percebe isso. Quando perceber será mais cuidadoso. Porque saberá que sou mais sensível.
E o meu nome? Eu já disse? Já falei de mim?
É certo que esta não seria uma carta anônima.
Talvez eu use um pseudônimo. Talvez meu sobrenome. Gosto dele. Talvez as iniciais.
Um e-mail?
Não sei. Tenho uma relação muito duvidosa com tecnologia. Computadores, telefones, bocas de fumo. Gosto da lucidez, da coisa primitiva. Das coisas sem ainda coisificadas pela maquinaria da pornografia cultural da indústria do cárcere público.
Ainda zelo pela relação.
E as cartas não são cartas. É só uma carta para um dia de Maio. O que é uma carta dentre as milhares que circulam mundo afora? O que é também um dia de Maio dentre os outros trezentos e sessenta e três dias do ano não-binário?
É estranho falar sobre esta carta para um dia de maio. Porque é como se tratasse de algo atemporal. E não é. E é tudo tão confuso quando pensado.
E o meu amor não sabe dessa minha confusão momentânea. Talvez porque não tivesse ele presente nesses momentos. As suas palavras sedosas. Sinto saudade delas.
E as minhas iniciais estarão na parte que cabe ao remetente ou ao destinatário?

Meu amor já deve estar por chegar. E estou um pouco triste. Triste pelo excesso de ausência. Triste por sua extensão maquinária quando me fala ao telefone palavras sedosas. Quando ouço a sua voz transferida, penso na escrita, na paleografia, na paleologia. Será que a cem milhões de anos, a paleografia se ocupará em estudar esta carta para um dia de maio?
Mas é melhor que não estudem. Farão as mesmas perguntas: por que para um dia de maio? Por que não janeiro ou novembro?

Não se contestam sobre se uma noite de maio ou se uma tarde chuvosa ou se haverá terremotos ou céus turqueses ou nuvens ou estrelas e luas ou cometas e fogo na lareira e vinho branco: um dia de maio.

Essa minha tristeza é uma festa. Porque esperneia quando o tempo parece não existir mais como antes. E as festas existem? A festa só existe na tristeza. Porque ela não é condicionada a nada como a tragédia da expressão do rosto alegre de quem não sabe o que sente direito: se festa dentro do peito, se desejo realizado, se engano por tudo que sente.
Que passa, desaparece.
Já não sei se mandaria esta carta para mim.
E não sei porque existem os pretéritos. O futuro não existe mesmo. É só outro engano temporal. E esse discurso de temporalidade. E essa mania de vídeo tape. E esse tratamento de tela grande. E essa paixão pelo meu amor. E esse meu amor. E esse pronome demonstrativo. Para que? O que eu quero com isso? Isso.

Assim me senti em demonstração. Senti-me demonstrado. Essa sensação é quase como ser objeto de inspiração para uma carta.
Lembrei-me do verso de um poeta: “És tu o amor de minha vida. Se não foste tu, estaria eu a vagar pelas claridades: cego.”

Por que toda inspiração põe como objeto o objeto de inspiração? Desse verso, só “as claridades” é o que me atrai. O que sobra é só objeto. É rejeito radioativo. Que narcotiza os apaixonados. Deixa-os sob algum efeito, não sei qual, só o que me atrai são “as claridades”.
Essa minha tristeza é uma festa. E não me embriago. E não saio de mim. E por que essa decadência de vídeo tape? E para que paleografia? E paleologia? Para que terapias? Psicologia e trufas de cupuaçu? Trufa: nome comum a vários fungos subterrâneos, comestíveis.
O que são trufas?
O que são as jaulas sem os enjauláveis?!
O que são as cartas sem os remetentes? Anônimas? Não. Para que tantas denominações para uma única coisa?
E que coisa sou eu sem o meu amor com suas palavras? E de que coisa é essa que se persiste em desvendar? Como se realmente existisse vendas a esconder a claridade para os olhos. É tudo ilusão. Como todo vídeo tape. Nossos olhos são uma vergonha para a evolução das espécies. A escrita também. As cartas e o seu individualismo.

Maio chorou alguma vez com a falta de tanta gente.
 
A escrita chorou alguma vez com o excesso de personalidade. Toda escrita é mesquinha e egoísta. A escrita falseia o expontâneo e o instantâneo. Ela é sempre arguciosa. Cheia de regras, contradições linguísticas, cheia de formatos, estilos, todos particulares. A escrita é, na verdade, uma mutação. Uma dissolução do papel mórbido que é o ser humano-escritor. E todos somos escritores: dissolucionadores de nossos papéis sociais mórbidos.
E o que há de errado com Maio?
Não há.
E só.
E o que há de errado com o seu excedente?
Exceler das demais coisas que nos fazem acreditar que existem não é equivocar-se.
Eu sou o equivocado. É por liberdade que se discute. Por estar preso a alguma coisa; alguma outra coisa semelhante a coisa que sou. As coisas estão misturadas: umas falam, escrevem; outras, nem praticam ações. Mas no fundo, todas são coisificadas. Essa é a lei, sob a qual, todas as coisas estão subordinadas: a lei da coisificação-funcionalidade.
Isso tudo porque estou me sentindo objeto de inspiração.

É como se sentem as trufas, as cartas, um dia de maio, o meu amor.
O meu amor?
Sim.
Todos somos coisas, com palavras sedosas ou não.
E nem me lembro mais do que falam as palavras sedosas. Será que de outros dejetos radioativos? Não. Porque vindo dos lábios do meu amor, não teria tal substância corroedora de vidas. Prefiro tê-las sedosas. Mas preferir é tão particular, tão indivíduo. E não sou indivíduo. Mesmo que a sociologia e todas as outras coisas que pensamos existir insitam em denominar com tantos nomes uma só coisa.
O pior é que não posso fugir de tantas nomenclaturas substanciais. Mesmo que se comportando, às vezes, como meia substância. Também nomenclatura, terá ela, uma.
E me sinto essa coisa: dependente da coisa.
E não sei mais onde estou quando estou em casa. E se estou. Talvez eu seja energia que corre nas instalações elétricas. Assim, estarei em toda parte, como já me sentia: ocupando todos os espaços. Só que é diferente, eu não ocupo mais, sou ambulante. O lugar que poderia ocupar nem é notado como coisa ocupada. É como no papel da carta: o lugar ocupado pela escrita é só um papel, não tem nem lugar de coadjuvante; esse papel, já é dos espaços não ocupados. (Quando se trata de qualquer outra carta).

CARTA – que nome tão pequeno para tantos nomes que nela cabem. Que nome tão onomatopeico. E ainda existem os neologismos, como se não bastassem as coisas que pensamos existir.
Mas é sintomático porque eu seja, talvez, um neologismo. E não quero descobri se sou.
E isto é só uma carta para um dia de maio. Não são presunções e nem tem objetivos científicos. Para que os objetivos? Só se conformam chegar às finalidades. São muito limitados. São hipócritas e também coisificadores, deles próprios.

Que decadência dominadora.

Parece que estou me esquecendo  que o meu amor está por vir. Que sensação estranha. Sensação de não localização temporal de quando me lembrei de que ele estar por vir. O que será isso? Também terei que indagar sobre memória?
Que chato isso. Não gosto de me prender a tempo algum. Memória é passado. Lembra computadores. Flores deixadas em túmulos. Museus. Os extintos Liceus. Céus nublados no inverno.
Espero chegar ao fim desta carta. Passa todo o tempo. E envelheço. Perco as viagens. Os vôos para Porto Alegre, Londres e Cuba. Maio é um mês bom para viagens. Encontro alguém por lá. Mas onde? Porto Alegre, primeiro. Depois Cuba e Londres. A Inglaterra espera por mim. As malas já estão prontas. Meu amor está por chegar. Ouço as suas chaves darem melodia ao abrir da porta. Esqueça as desavenças. Tudo deve ficar bem depois que passarmos um bom tempo esquecendo das festas de maio: aniversários, casamentos, enterros, batizados, fotografias das despedidas. Não nos espere no aeroporto. Tenho gosto de sangue na boca. Estou amando alguém. Você vai conhecer. Espere em casa. Gosto de recepções em casa. Nada casual. Faça um bom molho branco e camarão para o jantar.

— Cheguei, meu amor!
— Estou terminando uma carta! Estou no quarto!

Estou com saudades. Não esqueça do queijo e do bolo de cenoura. Você sabe que eu adoro.

— Vou colocando as malas no carro.
— Tudo bem.

Beijos e sonhos. Já estou chegando.

Imprime a carta. Dobra as folhas. Põe no envelope. Sela: a melhor parte. E parte depois de tudo.
Quaresma
Enviado por Quaresma em 20/02/2006
Código do texto: T114228
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Sobre o autor
Quaresma
Recife - Pernambuco - Brasil, 37 anos
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