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sobre as pessoas que não são de casa (início)

Primeiro, sem querer, teve que deixar o filho estudar em Brasília. Ela nem conhece a cidade, mas, mesmo assim, deixou que o filho fosse com dois amigos de infância. Lado e Léo. Lado vem de Leonardo, não sabe por quê. São irmãos gêmeos. Os pais deles são empresários do ramo de calçados. São bem de vida. Célio, seu filho, cresceu com esse incentivo: estudar fora, em Brasília, lugar das oportunidades. Telma entende. Entende que hoje tem que estudar mesmo. Tem que ir pra longe pra conseguir vencer alguma meta. Ela sabe dessas coisas, mesmo sendo dona de casa. Não que dona de casa seja alguém que não saiba de muita coisa, é que Telma é quadrada em muitas coisas, principalmente sobre filho sair de casa sem que tenha casado. Ela jura que tentou casar o filho com Tininha, Lavínia e Leotéria, mas as tentativas foram um fracasso. Ele não quis. O intuito era estudar, trabalhar e construir patrimônio – “depois, quem sabe, casar.” — Como ele dizia. Telma é mãe solteira, nunca casou de verdade no papel. Célio é filho de João Paulo, dono de uma rede de panificadoras. O relacionamento de Telma com ele não é lá essas coisas, mas ela sabe que ele sempre foi um bom pai, mesmo que não tenha querido casar-se com ela. Ele é quem banca as despesas do filho em Brasília. E quem sempre bancou os estudos do filho e todos os cursos que lhe fizeram um rapaz preparado para o mercado. Pode-se dizer que Célio tem muita sorte, e dá valor a ela. Porque Lado, é um que nunca quis nada com a vida. Tem de tudo, mas esse tudo é como um propósito de não querer conseguir mais nada. Sabe-se lá por quê. Outro dia, Lado foi pego fazendo chantagem com uma das professoras, Carmelita. Ela tem um grande problema de vício: jogo. Aí você já viu, ele muito louco, conhece todos os buracos de Brasília, entrou num desses bingos que existem em toda cidade e encontrou Carmelita: bêbada, fedendo a cigarro e há oito horas sentada naquela mesa. Aproveitava os dias de folga pra jogar umas. Ela é professora de inglês instrumental, e como instrumento de chantagem, Lado acabou usando o vício dela pelo jogo pra tirar vantagem da coitada. Mas coitado mesmo é Lado que não sabia que metade da Universidade já sacava a dela e acabou se ferrando depois de uma tocaia preparada por ela na sua segunda vez de tentativa de ganhar proveito da situação. Ela gravou a conversa e denunciou o rapaz na reitoria. Quer saber o que houve? Nada. Sabe por que? Porque Lado conhecia a reitora muito bem, bem demais por sinal. O caso foi abafado. Já o Léo, é um pouco parecido, mas não é tão estragado quanto Lado. Esse estuda. Tem boas idéias. Advindas, muitas, do amigo Célio. Eterno companheiro. “Prá toda a vida” — Como costuma declarar em suas conversas com Célio. Mas, na verdade, é uma paixão que ele não esconde sentir. E Célio? O que ele diz disso? Ele não diz, leva no banho-maria, mas já ficaram algumas vezes: viajaram juntos pra Gramado, transaram, viveram bons momentos juntos. Hoje, quase não se vêem tanto. Célio namora Érica, que é muito possessiva e já reparou nas intenções de Léo, proibindo que fiquem muito tempo juntos e, sozinhos. Ela chama Léo de Guel, e não o suporta mesmo. A última vez que se cruzaram foi num jantar preparado por Rafaela, sua melhor amiga e também melhor amiga de Léo. Rafaela é gay, mora sozinha num apartamento pequeno no Centro de Brasilia, vive do emprego de designer que conseguiu durante uma exposição de trabalhos gráficos da faculdade. Ela é boa nisso. E ganha bem. Érica e Rafaela são amigas acima de tudo. Lado é que não se dá muito bem com elas. Vive saindo fora das programações que inventam pra reunir a galera. Agora ele tá vidrado numa nova: Gisele. Ela é uma moça boa, muito “boa”. Lado sabe disso. Ela pegou um bucho na primeira. Depois tirou. Os pais dele? Nunca vão saber. Ela é linda mas é burrinha. Depois, Lado só quer pra sacanear mesmo. Coitada. Nem sonha que isso é verdade. Quer dizer, que é uma mentira a comunhão de coisas que Lado fala ter com ela. Ele é louco pela bunda dela. Alucinado. Ela é bobinha, caiu fácil na conversa dele. Mas ele é bonitão, grandão, gosta de se cuidar.
Quaresma
Enviado por Quaresma em 22/02/2006
Reeditado em 22/02/2006
Código do texto: T114903
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Sobre o autor
Quaresma
Recife - Pernambuco - Brasil, 37 anos
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