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por todo o tempo

Depois de algumas semanas de férias, resolvi voltar pra casa.
Poeira por toda a parte. Era o resultado de minha ausência. Correspondências deixadas debaixo da porta. A horta quase morta. Ausência de água. Minha ausência.
Olho para tudo e percebo que não queria voltar. Chegar aqui. Por todo o tempo. Penso e não relaxo. Passo a chave na porta. Solto as cortinas. Inclina o sol pela falta de espaço. Traço um plano de organização. São as coisas pra fazer. São as coisas deixadas antes da viagem.
Quase choro. Olho pro aquário. Estão os peixes. Por todo o tempo. Lentos e confinados. Quatro paredes de vidro. Olhos de vidro. Olham pra mim. E solitários.
Alguém deve ter ligado. Alguém queira ter ligado. Alguém queria ter sido atendido. Tido resposta. Mas a porta trancada. O celular deixado em casa. Passam as horas. Os dias. As aparências.
Sentei na poltrona. Tirei os sapatos. Arrasto a mala sobre as rodas. Dona dos pertences. Creme de açaí protagoniza como respingo o tecido da mala. Sala empoeirada. Cálida.
O trabalho exaustivo deva chamar por mim. Deva querer de mim, o suor. Só a mim. Pela metade. Tarde lembrança. E há cada dia de ausência. E há pouca inexistência de qualquer coisa. Pousa o corpo sobre a poltrona. O peso das pálpebras...




Dormi.
Só sei porque qualquer lembrança acordara o corpo. O rosto. Os olhos. Os poros da pele. E me senti pesado. Cansado do aquário. Era o aquário qualquer lembrança. Um palco aquático. Espetáculo prático. Visual dirigido. Líquido. Sinto muito.
Viro o rosto.
Acomodo a bochecha no estofado. Deforma a cara. Destrói a estética. A ética social. Da qual faço parte. É quase rotina. Pouca melanina na pele. E nem peguei sol nessas férias. Fui para sentir frio em qualquer lugar frio.
Tios. Primos. Vizinhos. Parentes distantes. Esqueci a todos.
Levei alguns sapatos. Casacos. Plástico, pra proteger qualquer coisa. Uma lousa. Pouca roupa. E um filme que já assisti sozinho. Um vinho para a primeira noite. Uma faca de caça. Taça.
E recebi recado da última vez. Me fez voltar. Estar aqui. Por todo o tempo. São as coisas que não deixei antes da viagem.
Quase imploro. Importo menos. Suporto mais. Corto os pulsos. Impulso suicida. O telefone toca. Alguém se importa. Ninguém bate à porta. E agora não cessa o sangue. Só seca as veias. E deixo sair. Por todo o tempo. Penso e relaxo. Passo a ficar. Me deixo ir pra algum lugar. Vou descobrir se há.
E o telefone toca. Se importa em insistir.
E se vir alguém que gosto. Que aposto não querer a mim. Viver de consolo. Tolo. Não vou atender. Ser ouvidos diante do nada. Queria uma carta de amor. Sou infeliz. Agora, um triz de vida. Um morto-vivo. Parte de um livro. Um fim.
Quaresma
Enviado por Quaresma em 23/02/2006
Código do texto: T115251
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Sobre o autor
Quaresma
Recife - Pernambuco - Brasil, 37 anos
79 textos (3499 leituras)
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Quaresma